SOLDADOS DA FÉ CATÓLICA
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
ENSAIO FILOSÓFICO
ANÁLISE DA
ADMIRAÇÃO INGÊNUA
(Síntese do texto de Gerd A. Bohrnheim)
A presente síntese tem por objetivo
proporcionar um conhecimento acerca da
questão da admiração ingênua e do ato admirativo, com base no texto do filósofo
Gerd Bohrnheim. É um estudo analítico desenvolvido sob o intuito de favorecer
uma reflexão coerente embasada nos processos filosóficos ligados ao conhecer. A
admiração ingênua ainda não é filosofar, mas é o plano inicial pré-filosófico.
O pano de fundo da assim chamada “Análise da Admiração Ingênua” necessita ser o
questionamento: O que é o conhecer?
A primeira consideração a ser
feita é a de que diante dos fenômenos (aquilo que se manifesta), para o
iniciante em filosofia e mesmo para todo e qualquer filósofo no sentido do
termo, necessita haver a admiração (primeiro passo, passo pré-filosófico). Quem
já não se admira, não tem motivações para desenvolver uma reflexão posterior.
Pois bem, a admiração ingênua pressupõe espontaneidade, é algo que advém
naturalmente, deriva do sentido de abertura. Só é capaz de admirar-se aquele
que é aberto.
Para esclarecer o ato admirativo,
o autor se usa do seu contrário: Sentido antiadmirativo (conformista) e
pessimista (fechado). Aquele que não se admira, mesmo não sabendo, está em uma
situação de contradição, visto que de algo ele necessariamente se admira: a
capacidade que alguém possa ter de admirar-se. A isto podemos chamar de "admiração
pessimista".
→ ADMIRAÇÃO
INGÊNUA ≠ PESSIMISMO INGÊNUO;
Afirmações tais como "nada
há de novo sob o sol" é categórica do pessimista da inteligência. Exemplo
desse pessimismo é o cético (dúvidas acerca do real, recusa do sentido das
coisas), é uma recusa da realidade na busca de sua neutalização. Outro tipo de pessimismo é o da sensibilidade. Neste caso, o indivíduo
sofre a realidade como um mal.
O pessimismo da inteligência
pode ser ingênuo ou agressivo. Segundo ele, nada revela, nada tem sentido. Já o
pessimismo da sensibilidade pode ser copnsiderado ingênuo por seu "plano
pré-crítico", e um "certo grau de apatia".
O pessimismo ingênuo apresenta
comportamento afetado, desconfiança básica e, por isso mesmo, profundamente
negativo da realidade. Na admiração ingênua dá-se o oposto: começa-se a
perceber um sentido neste real, está aberta à realidade que a transcende. Em
outras palavras, é simpática ao que se lhe manifesta. Heidegger chama esse
sentido de abertura de expor-se ao ente, transportar-se ao aberto - (o Eu
Amirante aberto ao ente).
O objeto da admiração: "tudo aquilo que tem força de ser é
passível de admiração". (p.39)
Características da
Admiração Ingênua:
* a afirmação da
realidade compreendida como abertura ("disponibilidade amorosa e
desinteressada"). A distinção que possibilita ao homem a admiração é a
consciência;
* consciência de si;
Características da
Consciência ingênua:
- distância: o
homem sabe-se separado do que o cerca. Distância entre o Eu Admirante e o
admirado; (“O homem não é pura exterioridade”, isso dissolveria a consciência;
“o homem não é também, pura interioridade”, isso faria desaparecer a distância
característica da consciência encarnada). Vale dizer que a consciência pactua
com a exterioridade, mas não se confunde com ela; - (interioridade exterior/
Exterioridade interior);
- experiência da
consciência ingênua: experiência da heterogeneidade; o radicalmente outro, o
diferente, o diferente a si e em si;
A admiração é diferente do
pasmo, uma vez que este proporciona confusão. É diferente também da surpresa,
mesmo que esta se pareça com a admiração por suprimir a indecisão e a indistinção.
No entanto, surpresa para ser surpresa necessita haver algo imprevisto.
A admiração ingênua é
importante para a posterior reflexão filosófica, mas ela em si ainda não é
filosófica. Como dizíamos anteriormente, ela é pré-filosófica.
Desafios da Evangelização nas
Circunstâncias Atuais
A Igreja tem um percurso bastante interessante nesses séculos de
história. O que mais impressiona, no entanto, é a dinâmica e a coragem dos primeiros cristãos que não se
intimidaram frente às dificuldades do caminho. Exemplo disso são as comunidades
cristãs que se formavam e que eram perseguidas pelo sistema governamental.
Desses tempos, se nos apresenta uma lista incontável de mártires que, por amor
à causa do Reino, derramaram o seu sangue.
Os Apóstolos, aos quais coube a sublime missão de fazer discípulos do
Mestre “todos os povos” (Mt 28, 19), enfrentaram inúmeras dificuldades no que
diz respeito ao processo de evangelização de judeus e, até mesmo, de pagãos.
Evangelizar onde tudo é bem aceito é um processo fácil, mas evangelizar onde a
consciência está anestesiada por uma cultura impregnada de uma falsa idéia de
Deus e da sua proposta, torna-se quase impossível, primeiro por que as pessoas
estão fechadas à Boa Nova e, depois, por que às vezes essas mesmas pessoas
exerciam funções de poder social e poderiam acabar dizimando todos os que
porventura se mantivessem hostis às decisões do governo vigente. Nesse contexto
de medo e insegurança nasceram as primeiras comunidades cristãs. Comunidades
essas que adquiriram uma característica heróica, visto que não se deixaram
levar pelo medo, mas confiaram na assistência do Espírito Santo.
Nos tempos atuais, e de modo especial na nossa cultura ocidental, o
cristianismo é aceitável, mas não praticado. É presente, mas contestado. É
parte da sociedade, mas desrespeitado. Poderíamos dizer que a consciência das
pessoas tornou-se uma consciência mesquinha, de aparências. Fazendo uso do
lúdico, poderíamos dizer que a vida em sociedade tornou-se um constante
suportar. Suportar para parecer concordar. Suportar em meio a sorrisos para não
agredir. Mascarar a verdade é justamente o pecado mais grave de nossa
sociedade. Por esse motivo, o campo de evangelização torna-se bem mais
abrangente.
Nós como fazedores do evangelho nas circunstâncias atuais temos uma
oportunidade de testemunharmos Jesus mesmo entre sombras. São constantes
ataques a serem combatidos e más interpretações a serem corrigidas. São
ideologias a serem desmascaradas e correntes de pensamentos a serem extirpados.
A perseguição tornou-se sutil. Hoje já não temos tanto perigo em termos de
exposição pública da fé, mas temos outros desafios. Talvez a falha da evangelização
seja que formamos profissionais e a eles atribuímos o nome de “cristãos”, mas
deixamos de lado a formação de consciências cristãs. Não basta legarmos uma
religião.Temos que legar uma consciência religiosa que mexa com princípios
pessoais. Uma consciência que mexa com as convicções. Não podemos deixar nossa
fé a mercê de ataques sem fundamento. Hoje qualquer pessoa de doutrinas as mais
diversas convence um cristão católico de que a verdade é tudo menos aquilo que
a Igreja ensina como verdade fundamental. Ora, isso não é uma forma de
perseguição? E os que conhecem Cristo (ou dizem que o conhecem) ficam sentados
em casa, comendo biscoitos e tomando café na frente da tv ou do computador.
Nosso maior desafio é o desacomodar para podermos formar consciências. Se
permitirmos, a acomodação vai gerar profissionais e os profissionais vão gerar
desinformados e deformados, e assim por diante numa cadeia interminável de
grande lixo cristão. (Lixo cristão, entenda-se bem, é o profissionalismo cristão
que se contenta em cumprir preceitos unicamente). Aí está o desfio da
atualidade: lançarmos fora o lixo cristão. Precisamos de auto-formação,
formação de consciências cristãs sadias. O desafio de entender Jesus como a
verdade única da vida e, n’Ele a sua Igreja. Grande tarefa a ser cumprida!
Por fim, faz-se importante determinarmos os aspectos acima citados para
fomentar o espírito missionário que muitas comunidades já renovaram com
impressionante fervor. Nossa missão como nos tempos dos primeiros cristãos é
levarmos Jesus Cristo. No entanto, não podemos fugir da realidade. Pés no chão
e olhos no Alto. Vamos em busca de uma comunidade cristã mais autêntica, que
não se amedronte frente aos desafios. Vamos em busca da formação de
consciências, de pessoas, de vidas, de princípios cristãos. Eis o sonho de todo
bom evangelizador nas novas circunstâncias. Eis o nosso sonho!
Questões Antropológicas - ENSAIOS FILOSÓFICOS
Tendo lido o livro “Dizer homem hoje” de Nunzio Galantino, e dada sua
extensão e a relevância de seus assuntos, todos muito oportunos
indubitavelmente, buscamos agregar e sintetizar dois capítulos que se nos
parecem de um grau de relevância superior aos demais no que se refere à
compreensão daquilo que vem a ser próprio da antropologia filosófica.
Apreciações pessoais, citações e descrições são parte desse trabalho,
resultados de leitura e reflexão.
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LIVRO: Dizer
Homem Hoje
(“Dire ‘uomo’ oggi”)
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AUTOR: Nunzio
Galantino
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EDIÇÃO: 1º
edição
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ANO: 2003
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Nº DE PÁGINAS: 178
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EDITORA: Paulus
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Cap. Primeiro – “Antropologia,
Antropologias e Antropologia Filosófica: Entre Semântica, História e Epistemologia”.
Notadamente, antropologia é um
termo polissêmico (abrange várias significações). Com efeito o autor, Nunzio
Galantino, afirma ser este termo uma ocasião para um “arbítrio lingüístico”,
uma vez que podemos considera-lo sob vários enfoques: físicos, filosófico,
teológico, econômico, cultural, etc. Antes de mais nada, é preciso dizer que a
antropologia não nasce com o aparecimento desta disciplina. Nasce, deveras, com
o próprio homem. (cf. pgs. 9 – 10).
Da amplitude de significados do termo antropologia, advém a problemática:
é possível obter uma visão de conjunto sobre o homem? Podemos considera-lo na
sua totalidade? Eis aí o esforço da antropologia filosófica: procura-se
compreender o homem na sua total significância, isto é, uma visão não fragmentada
do mesmo, buscando evidenciar as bases fundamentais constituintes do homem, sem
com isto ocasionar determinismos impróprios e injustificáveis.
Já na sua Ética a Nicômaco, Aristóteles
usa o termo anthropologos ao
referir-se ao magnânimo e ao exercício da magnanimidade. Afirma que o magnânimo
não é mexeriqueiro, pois não se lhe é aprazível falar de si ou dos outros, nem
tampouco ser louvado em detrimento dos demais. (cf. p. 10)
Na Patrística a significância do termo assume uma característica
redutiva, que se estende até Leibniz e Malebranche. Neste período, antropologia
é entendida como o exprimir-se antropomorficamente sobre Deus. No século XVI,
recomeça-se a falar em antropologia de maneira articulada: “o debruçar-se do homem sobre si e suas
questões...”. Erasmo de Roterdã e M. Montaigne: o homem entra em si e
valoriza o necessário afugentando o supérfluo. Especificamente a compreensão de
Montaigne sobre o termo: “...relatar as
coisas sobre nós mesmos e os outros”. (cf. p. 11)
No século XVII a antropologia é assumida como a busca do “conhecimento de
si”. Já no século subseqüente, XVIII, a perspectiva anterior é completada por
Kant, na sua “Antropologia do ponto de vista pragmático”. Aqui a compreensão
dá-se, sinteticamente falando, como “uma
doutrina do conhecimento do homem ordenado sistematicamente”. No seu
interior, há a distinção entre uma antropologia fisiológica e uma pragmática,
sendo que a primeira determina aquilo que a natureza faz do homem e a segunda,
conservando o especificamente ético, enquanto tende a aumentar as capacidades
do homem, é vista como uma verdadeira e própria reflexão filosófica sobre o
homem. Doutra parte, temos a visão mecanicista do homem presente e fundamentada
em Descartes (1596 – 1650). Tomemos como exemplo, para fins de uma elucidação
plausível desta concepção antropológica, o cartesiano Pierre Dionis. Este
considera que a antropologia compõe-se, também, de duas partes: psicológica
(trata o homem) e anatômica (corpo e afins). (cf. pgs. 12 – 14).
Maine de Biran (1766 – 1824), perspicazmente, na obra Novos ensaios de Antropologia (1823 –
1824), considera que o homem precisa ser entendido na sua integridade e não só
numa parte ou sob um determinado aspecto. É crucial levar em consideração os
relacionamentos entre sujeito idêntico (eu) e suas respectivas sensações,
idéias, funções ou operações de todas as ordens orgânicas ou intelectuais
mutáveis. Em A. Rosmini
antropologia é a “ciência que trata da
natureza humana”. Sob esse enfoque, o
homem é a soma animal + espírito + sujeito, e é precisamente no sujeito
que está a animalidade e a inteligência. (cf. p.14)
Nos seus Escritos filosóficos, Feuerbach
(1804 – 1872) afirma que a “nova” filosofia é a síntese (dissolução) coerente
entre teologia e antropologia, ou seja, a “nova” filosofia parece ter
finalmente chegado à essência do ser humano, pelo viés do exercício racional
que aos poucos poliu a teologia e antropologia e os dissolveu nessa “nova”
filosofia. O feurbachiano consiste no materialismo no qual não há necessidade
de recorrer a Deus para explicar a realidade: “o ponto de partida de toda filosofia é o homem”. Cria-se uma
pseudo-independência divina, por assim dizer. Em síntese, dizemos que o período
denominado Idade Moderna, assume a dissolução da teologia em antropologia. Karl
Marx , nas suas Teses
sobre Feuerbach , integra a perspectiva anti-hegeliana de Feurbach,
enriquecendo-a com uma perspectiva antropológica com forte enraizamento na
história. É a perspectiva do homem quando de seu contínuo processo de
libertação pela práxis revolucionária, evitando toda forma de alienação. (cf p.
15)
Considerando os diversos enfoques do termo, sempre que há especificação
de um determinado enfoque, a delimitação se torna fácil, uma vez que se capta o
objetivo que cada antropologia se propõe a atingir. Em função disso, Nunzio
Galantino divide ainda a antropologia em duas partes: aquela que analisa o
homem a partir de determinados aspectos (antr. física, antr. filosófica, antr.
científica, antr. teológica...) e a que faz referência ao método de abordagem
do homem (ex.: antr. estruturalista, antr. marxista). (cf. p. 18).
Para exemplificar um dos enfoques, tomemos Bronislaw Malinowski (1842 –
1942). Ele é o expoente da assim chamada “antropologia cultural”. Segundo ele, antropologia
cultural é um conjunto de “pesquisas de campo” que objetivam individualizar a
especificidade das culturas particulares. Claramente, essa antropologia se
enquadra na divisão primeira das subdivisões da antropologia segundo Galantino
( a que analisa o homem a partir de determinados aspectos). Por certo que aqui
poderíamos falar de diversos enfoques da antropologia e suas respectivas especificações.
Poupar-nos-emos desse trabalho, visto que há considerações mais importantes a
serem feitas que simplesmente ficar explicando cada uma das antropologias
existentes. (cf. p. 19).
Mais importante que desenvolver explicações para os diversos enfoques
antropológicos existentes é explicitar o propriamente amplo e o especificamente
interessante para o filósofo: a Antropologia filosófica. A riqueza da
antropologia filosófica vem propriamente do interesse das diversas ciências
sobre o homem ( a consideração da diversidade e da amplitude de seus aspectos).
Contrariamente, a pobreza dá-se quando o antropólogo não caracteriza a sua
indagação: “Quem é o homem?”. Nesse
sentido, facilmente poderia acabar postulando determinismos, o que nem de longe
atinge o vasto e o extenso do homem. (cf pgs.19-20).
Feuerbach diz que para além de uma antropologia filosófica, parece
necessário falar de uma “filosofia antropológica”. A propósito disso, Kant já
afirmara que uma filosofia com pretensão cosmopolita deve se organizar em torno
de quatro interrogações: Que coisa posso pensar? Que coisa devo fazer? Que
coisa é-me consentido esperar? Que coisa é o homem? (cf.p. 24).
Max Scheler, iniciador da Antropologia Moderna, diz-nos: “... de uma estrutura fundamental do
ser homem deriva tudo aquilo que é monopólio específico, efeito e obra do
homem”. Para ele, a pergunta ‘Quem é
o homem?’ não nasce independente de sua existência e também não é fim em se
mesma. Daqui deriva uma autêntica reflexão sobre o homem: de onde e por que
nasce a pergunta antropológica? – Em seu texto “A Posição do homem no cosmos”,
Max Scheler avança e desenvolve a antropologia filosófica como algo que se dá
para além do contexto no qual o homem está inserido e os questionamentos
próprios do seu tempo. Em linhas gerais, o “de onde” e o “por que” vêm do
desejo de conhecer o homem e apresenta-se amplo e diverso ao longo dos séculos,
nos múltiplos contextos culturais. (cf. pgs.25-33)
O autor, Nunzio Galantino, diz-nos que para efetivarmos um processo de
reflexão autêntico e orgânico, há de se fazer o esforço para “ler de fora”
tendo como objetivo uma visão global, que gradativamente se nos vai clareando
mediante a consideração dos diversos contextos históricos. (cf. p.33)
“ Quando o homem, pasmado e admirado
nos confrontos da realidade que vive e que é, a assume com profundidade,
exercitando ali uma reflexão sistêmica, então nos encontramos diante da
antropologia filosófica. O saber sapiencial em torno do homem, portanto, nasce
da interconexão entre a maravilha que o nosso próprio ser suscita em nós e a
reflexão sistemática”.
(GALANTINO, Nunzio. Dizer homem hoje. p. 36. vol. I, 2003. Ed. Paulus).
Cap. Quarto – “A Antropologia filosófica depois de Max Scheler”
Anteriormente, quando nos referíamos ao capítulo primeiro da obra de
Nunzio Galantino, Dizer homem hoje, fazíamos
uma espécie de abordagem histórica dos múltiplos conceitos de antropologia, bem
como das diversas antropologias e, por fim, tratávamos especificamente da
antropologia filosófica, com particular interesse no legado de Max Scheler que,
como já dissemos, foi o iniciador da Antropologia Moderna. Este percurso por
entre os diversos contextos e o amadurecimento do conceito de antropologia é
mais uma sucessão lógica que propriamente cronológica. Seria uma espécie de,
sob a ótica de Galantino, “um percurso
teorético”.Pois bem, passemos agora à Antropologia pós Max Scheler.
No “fazer filosofia” se coloca a proposta de antropológica do autor,
Galantino, que, por sua vez, adota “uma
das duas diretrizes em que se desenvolveu a Antropologia de Max Scheler”.
·
I- linha
das ciências particulares. Linha esta desenvolvida por Arnold Gehlen, A.
Portmann, Lèvi-Strauss: nas diversas perspectivas, se vai delineando “os traços
caracterizantes do Fenômeno Humano” (cf. p.98).
“Não tocam a essência , mas o
devir do homem” (p.101)
·
II- “análises
fenomenológicas da experiência originária que o homem tem da realidade”: o
homem que se debruça sobre si mesmo e sobre o mundo ou “estudo do homem no
homem”.(cf. p.99)
Diga-se, Antropologia Filosófica não é uma “filosofia existencial”.
Antropologia Filosófica busca “colher um sentido do homem”. (cf. p.99).
A partir de Max Scheler a antropologia filosófica diz não, tanto a uma
antropologia sob as categorias aristotélicas, quanto a um esquematismo
kantiano, isto é, a uma recusa à “acepção idealístico formal do
‘transcendente’”. Quer se evitar, com isto, uma estrutura de pensamento, bem
como, uma lógica, por assim dizer, divorciada da vida. (cf. p. 100).
Outro “não” de Max Scheler, além daqueles das categorias aristotélicas e
do esquematismo kantiano, é o “não” a uma antropologia filosófica que visa
exclusivamente o comportamento e a produção cultural do homem. Segundo Scheler,
este “não” ajuda a amadurecer uma resposta sobre a essência do homem.
Ambos os “nãos”, remetem à uma compreensão do homem de forma análoga,
comparativa ao que está fora, p. ex., o homem em relação ao mundo, o homem em
relação aos animais (semelhanças e diferenças. Isto ainda não é uma reflexão do
homem no homem). (cf. pgs.101 – 102).
Se nos apresenta agora um problema hermenêutico da antropologia
filosófica: em função da impossibilidade de distinguir sujeito e objeto da
pesquisa (neste caso o
sujeito é o
homem e o objeto é, também o homem), dizemos que esta reflexão é, na verdade,
uma autocompreensão humana, não tematizada. (cf. p.102).
Nos casos dos “nãos” para Max Scheler, p. ex., a autocompreensão já é
plenamente tematizada. Por isso não é correto colocar o problema, resolvê-lo
dando importância absoluta às ciências empíricas (homem – animal; ou homem nas
suas produções culturais). (cf. p. 102)
Davi Jonas Dietrich.
Exercício pré-filosófico
O trabalho a seguir é uma singela compreensão que, diga-se de passagem, antes de ter o mínimo conhecimento filosófico, apresentei ao formador do Seminário Maria Mater Ecclesiae em Itapecerica da Serra/SP, após a leitura do livro "Jesus Cristo" de Karl Adam, por ocasião das aulas de introdução à Cristologia.
Frases do livro Jesus
Cristo de Karl Adam:
INTRODUÇÃO
Esse trabalho tem como objetivo o conhecimento mais aprofundado da pessoa
do Salvador, Jesus Cristo, que se nos deu a conhecer através de sua encarnação
e, mais precisamente, pela sua Ressurreição. Quando olhamos a vida de Jesus,
sentimo-nos impulsionados em entendê-lo cada vez mais. Esse conhecimento requer
a observação de nossas próprias experiências de vida que facilmente podem ser
comparadas às muitas de suas pregações, ensinamentos e testemunhos. Daí parte,
portanto, o interesse em conhecer tão admirável sabedoria. Afinal, o que
levaria um homem a ter pleno entendimento das coisas da vida, bem como seus
conselhos que, se aplicados à vida prática nos levam a uma admirável vivência
em muitos aspectos?
“Jesus de Nazaré - diriam estudiosos - é conhecido pelos seus grandes
feitos em nosso meio. De fato, suas palavras remetem a um conhecimento
raramente atribuído a um ser humano comum. Por isso que podemos considerá-lo
sábio”. Com um olhar um tanto mais
aprofundado e levando em consideração a fé, buscaremos defender a tese de que
Jesus verdadeiramente é o Filho de Deus e que a sua sabedoria não provinha
meramente dos conhecimentos humanos, mas sim, de sua união com o Pai, sendo a
segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Muitas foram as pessoas que buscaram conhece-Lo mais através dos estudos
e da vida de fé. Esse trabalho quer ser mais uma motivação de conhecimento da
pessoa de Jesus, bem como de seus ensinamentos. Talvez pareça evidente a
influência da fé sobre o trabalho e de fato o é. Diversas vezes usaremos a
Sagrada Escritura como fonte de pesquisa e como prova da evidente Sabedoria do
Mestre relatada na mesma.
CITAÇÕES
BÍBLICAS QUE DEMONSTRAM A SABEDORIA DE JESUS:
Ao apresentarmos a Sagrada Escritura como fonte de pesquisa e como fonte
de comprovação da evidente sabedoria de Cristo, não queremos reunir
credibilidades científicas das quais já sabemos a existência. Pelo contrário,
queremos demonstrar a nossa fé na Sabedoria divina de Jesus a partir de um mero
apanhado de palavras atribuídas a Ele nos Evangelhos. Só nessas simples
colocações perceberemos as muitas colocações de Jesus frente a casos quase que
perdidos. “Arapucas” preparadas para o Mestre são por Ele facilmente desfeitas.
Mas como se dá isso? A única explicação é essa: sua sabedoria provém de seu Pai
que o enviou como causa de espanto para muitos “mestres da lei e fariseus
hipócritas”.
Jesus Cristo foi líder por que foi sábio. Ao estudarmos sociologia,
veremos ao longo da matéria que tal liderança pode ser própria (que é da
própria pessoa) ou atribuída (cargo de liderança atribuída a uma pessoa).
Jesus, como podemos imaginar, é um caso de liderança própria. De fato, antes
mesmo que Ele nascesse, já lhe era própria, ou própria do Salvador, a tarefa de
remir os pecados. Vejamos o que nos diz o Evangelho de Mateus a esse respeito
(Mt 2, 6): “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre os clãs
de Judá pois de ti sairá um chefe que apascentará Israel, o meu povo”. Ora, de
fato, para exercer liderança de tal importância, é necessária uma sabedoria de
grau muito elevado.
A seguir outras passagens que aludem à
Sabedoria de Jesus:
Jesus, no deserto, usa de uma
sabedoria incrível ao responder às colocações feitas por Satanás. É a Sabedoria
de Deus que age nele, embora a sua humanidade por vezes lhe diga o contrário.
Jesus não se deixa levar pelas ciladas do diabo. Ele sabe o que não é de Deus!
Mt 4, 1-11: “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado
pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve
fome. Então, aproximando-se o tentador, disse-lhe, “Se és o Filho de Deus,
manda que estas pedras se transformem em pães”. Mas Jesus respondeu: “ Está
escrito: Não só de pão vive o homem, mas
de toda palavra que sai da boca de Deus”.
Então, o diabo o levou à Cidade
Santa e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: “Se és o Filho
de Deus, atira-te para baixo, por que está escrito: “Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, e eles te tomarão pelas
mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra”.
Respondeu-lhe Jesus: “ Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus”.
Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto. E mostrou-lhe
todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe: “Tudo te darei, se,
prostrado me adorares”. Aí Jesus lhe disse: “Vai-te, Satanás, por que está
escrito: “Ao Senhor teu Deus adorarás e
só a Ele prestarás culto”.
Com isso, o diabo o deixou. E os anjos de Deus se aproximaram e
puseram-se a servi-lo”.
Bem aventuranças, sinal da
Sabedoria divina de Jesus:
Mt 5, 3-12 : “Felizes os pobres no espírito porque deles é o Reino dos
Céus. Felizes os mansos porque herdarão a terra. Felizes os aflitos, porque serão
consolados. Felizes os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de
coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão
chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois, quando vos injuriarem e vos
perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim.
Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus,
pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós”.
As palavras de Jesus são
superiores às dos escribas:
Mt 7, 28-29 : “Aconteceu que ao
terminar Jesus essas palavras, as multidões ficaram extasiadas com seu ensinamento,
porque as ensinava com autoridade e não como os escribas”.
Mt 11, 19: “A Sabedoria é justificada pelas obras”.
Jesus por diversas vezes falou
também em parábolas.
Mais um modo de demonstrar conhecimento, sabedoria. O que
mais chama atenção nessas parábolas é a coerência como comparação à vida
prática. Além, é claro, da estruturação das parábolas, pois, de fato, podemos
compreendê-las e isso torna mais fácil o entendimento da proposta de Deus como
tal.
Mt 13, 53-56: “Quando Jesus acabou de contar essas parábolas, partiu dali
e, dirigindo-se para a sua pátria, pôs-se a ensinar as pessoas que estavam na
sinagoga, de tal sorte que elas se maravilhavam e diziam: “De onde lhe vêm essa
Sabedoria
e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama a mãe dele
Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não vivem
todas entre nós? Donde então lhe vem todas essas coisas”.
Sabedoria de Jesus inclusive nos
relacionamentos pessoais. (Dicas do Mestre):
Mt 18, 15-17: “Se o teu irmão pecar, vai corrigi-lo a sós. Se ele te
ouvir, ganhaste o teu irmão. Se não te ouvir, porém, toma contigo mais uma ou
duas pessoas, para que toda questão seja decidida pela palavra de duas ou três
testemunhas.
Caso não lhes der ouvidos, dizei-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja der
ouvido, trata-o como o gentio ou o publicano”.
A sabedoria de Jesus, provinha também das sagradas escrituras das quais
tinha pleno conhecimento:
Mt 21-42: “Disse Jesus: ‘que pensais a respeito do Cristo? Ele é filho de
quem?’ Responderam-lhe: “de Davi”. Ao que Jesus lhes disse: “Como então Davi,
falando sob inspiração, lhe chama Senhor, ao dizer: O Senhor disse ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu
ponha os teus inimigos debaixo de teus pés?”.
Quanto aos discípulos de Jesus,
sabemos que por diversas vezes os exortou de modo a torná-los mais santos e
mais abertos.
Eis algumas correções da parte de
Jesus quando seus discípulos erravam ou equivocavam-se:
(Lc 9, 46-48): “Houve entre eles uma discussão: qual deles seria o maior?
Jesus, porém, conhecendo o pensamento de seus corações, tomou uma criança,
colocou-a a seu lado e disse-lhes: ‘Aquele que receber uma criança como esta
por causa do meu nome, recebe a mim, e aquele que me receber recebe aquele que
me enviou; com efeito, aquele que no vosso meio for o menor, esse será
grande’”.
(Mc 10, 14-15): “Vendo isso, Jesus ficou indignado e disse: “Deixai as
crianças virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus. Em verdade
vos digo: aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, na entrará
nele”.
Em outros momentos, também quando
fala aos discípulos através de sua magna sabedoria, Jesus pede que eles
observem a realidade:
(Mc 8, 27-29): “Jesus partiu com
seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe, e no caminho, perguntou
a seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” Eles responderam:”João
Batista”; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas”. “– E vós, perguntou
ele, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Cristo”.
(Jo 4, 35): “Não dizeis vós: ‘Ainda quatro meses para a colheita?’ Pois
bem, eu vos digo: Erguei vossos olhos e vede os campos: estão brancos para a
colheita”.
(Mt 16, 1-3): “Os fariseus e saduceus vieram até ele e pediram-lhe, para
pô-lo à prova, que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. Mas Jesus lhe
respondeu: ‘Ao entardecer dizeis: ‘Vai fazer bom tempo, porque o céu está
avermelhado; e de manhã: Hoje teremos tempestade, porque o céu está de um
vermelho sombrio. O aspecto do céu,sabeis interpretar, mas os sinais dos
tempos, não sois capazes!”.
É Jesus também que na sua imensa
sabedoria, defende os discípulos quando são criticados.
(Mc 2, 18-19; 7, 5-13): “Os discípulos de João e os fariseus jejuavam, e
vieram dizer-lhe: ‘Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus
jejuam, e teus discípulos não jejuam?’ Jesus respondeu: ‘Podem os amigos do
noivo jejuar enquanto o noivo está com eles? Enquanto o noivo estiver com eles,
não podem jejuar’”. (...)
“Os fariseus e os escribas o interrogaram: ‘Por que não se comportam os
teus discípulos segundo a tradição dos antigos, mas comem o pão com mão
impuras?’ ele lhes respondeu: ‘Bem profetizou Isaías a respeito de vós,
hipócritas, como está escrito: Este povo
honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim. Em vão me prestam
culto; as doutrinas que ensinam são apenas mandamentos humanos. Abandonais
o mandamento de Deus, apegando-vos à tradição dos homens’. E dizia-lhes:
‘Sabeis muito bem desprezar o mandamento de Deus para observar a vossa tradição.
Com efeito, Moisés disse: Honra teu pai e
tua mãe, e: Aquele que amaldiçoar pai
ou mãe certamente deve morrer. Vós, porém, dizeis: ‘Se alguém disser a seu
pai ou a sua mãe: os bens com que eu poderia te ajudar são: Corban, isto é, oferta sagrada – vós não
o deixareis fazer mais nada por seu pai ou por sua mãe. Assim, invalidais a
Palavra de Deus pela tradição que transmitistes. E fazeis muitas outras coisas
desse gênero’”.
Pudemos perceber claramente que
Jesus sabia dialogar com aqueles que se diziam sábios e entendidos. Dessa
forma, manifestou que sua sabedoria superava em quantidade e qualidade à
sabedoria meramente humana. Sem sombra de dúvida, podemos afirmar que a
sabedoria que Jesus possuía provinha de seu Pai e que todas as vezes que
respondia, procurava a força do Espírito que nele habitava. O sucesso de seus
ensinamentos, por vezes misteriosos, são ainda hoje estudados, meditados,
desvendados e, em muitos casos, vivenciados. Pessoas de todas as partes do
mundo confiam nas palavras de Jesus para buscar um sentido para suas vidas.
Como o próprio João relata ao final de seu evangelho dizendo que Jesus fez
muito mais e que (assim penso eu) sua sabedoria é superior a de qualquer ser
humano. “Este é o discípulo que dá
testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu: e sabemos que o seu testemunho
é verdadeiro. Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez. Se fossem escritas
uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se
escreveriam”. (Jo 21, 24-25). Deus se vale de sinais. Jesus é o mais
perfeito elo entre o ser humano e Deus. É o mais vivo e intenso sinal do amor
divino por nós, isto é, é a sabedoria viva e presente no meio de nós até os
dias de hoje, segundo aquilo que nos prometeu.
“Na realidade, achamos nEle um homem único,
que não se pode comparar a outras figuras da história na tentativa de
compreende-lo. Só se explica e compreende por si próprio”.
“Pelo contrário, Jesus vê os homens tais
como são, com as suas contradições e fraquezas. Chama-os ‘raça má e adúltera’”.
Estas frases remetem a um maior
conhecimento do Mestre naquilo que diz respeito à sua sabedoria. Duas
características a destacar: Jesus é incomparável e onisciente, ou seja, nenhum
ser humano se pode ser comparado ao Mestre e nenhum ser humano possui tamanho
conhecimento dos outros e de si mesmo como o conhecia Jesus.
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