terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ENSAIO FILOSÓFICO


ANÁLISE DA ADMIRAÇÃO INGÊNUA

                                                                                              (Síntese do texto de Gerd A. Bohrnheim)

                 A presente síntese tem por objetivo proporcionar  um conhecimento acerca da questão da admiração ingênua e do ato admirativo, com base no texto do filósofo Gerd Bohrnheim. É um estudo analítico desenvolvido sob o intuito de favorecer uma reflexão coerente embasada nos processos filosóficos ligados ao conhecer. A admiração ingênua ainda não é filosofar, mas é o plano inicial pré-filosófico. O pano de fundo da assim chamada “Análise da Admiração Ingênua” necessita ser o questionamento: O que é o conhecer?
               A primeira consideração a ser feita é a de que diante dos fenômenos (aquilo que se manifesta), para o iniciante em filosofia e mesmo para todo e qualquer filósofo no sentido do termo, necessita haver a admiração (primeiro passo, passo pré-filosófico). Quem já não se admira, não tem motivações para desenvolver uma reflexão posterior. Pois bem, a admiração ingênua pressupõe espontaneidade, é algo que advém naturalmente, deriva do sentido de abertura. Só é capaz de admirar-se aquele que é aberto.
              Para esclarecer o ato admirativo, o autor se usa do seu contrário: Sentido antiadmirativo (conformista) e pessimista (fechado). Aquele que não se admira, mesmo não sabendo, está em uma situação de contradição, visto que de algo ele necessariamente se admira: a capacidade que alguém possa ter de admirar-se. A isto podemos chamar de "admiração pessimista".
                             → ADMIRAÇÃO INGÊNUA ≠ PESSIMISMO INGÊNUO;
               Afirmações tais como "nada há de novo sob o sol" é categórica do pessimista da inteligência. Exemplo desse pessimismo é o cético (dúvidas acerca do real, recusa do sentido das coisas), é uma recusa da realidade na busca de sua neutalização.  Outro tipo de pessimismo é  o da sensibilidade. Neste caso, o indivíduo sofre a realidade como um mal.
               O pessimismo da inteligência pode ser ingênuo ou agressivo. Segundo ele, nada revela, nada tem sentido. Já o pessimismo da sensibilidade pode ser copnsiderado ingênuo por seu "plano pré-crítico", e um "certo grau de apatia".
              O pessimismo ingênuo apresenta comportamento afetado, desconfiança básica e, por isso mesmo, profundamente negativo da realidade. Na admiração ingênua dá-se o oposto: começa-se a perceber um sentido neste real, está aberta à realidade que a transcende. Em outras palavras, é simpática ao que se lhe manifesta. Heidegger chama esse sentido de abertura de expor-se ao ente, transportar-se ao aberto - (o Eu Amirante aberto ao ente).
              O objeto da admiração:  "tudo aquilo que tem força de ser é passível de admiração". (p.39)


Características da Admiração Ingênua:

* a afirmação da realidade compreendida como abertura ("disponibilidade amorosa e desinteressada"). A distinção que possibilita ao homem a admiração é a consciência;
* consciência de si;

Características da Consciência ingênua:

- distância: o homem sabe-se separado do que o cerca. Distância entre o Eu Admirante e o admirado; (“O homem não é pura exterioridade”, isso dissolveria a consciência; “o homem não é também, pura interioridade”, isso faria desaparecer a distância característica da consciência encarnada). Vale dizer que a consciência pactua com a exterioridade, mas não se confunde com ela; - (interioridade exterior/ Exterioridade interior);
- experiência da consciência ingênua: experiência da heterogeneidade; o radicalmente outro, o diferente, o diferente a si e em si;
                           
                     A admiração é diferente do pasmo, uma vez que este proporciona confusão. É diferente também da surpresa, mesmo que esta se pareça com a admiração por suprimir a indecisão e a indistinção. No entanto, surpresa para ser surpresa necessita haver algo imprevisto.
                   A admiração ingênua é importante para a posterior reflexão filosófica, mas ela em si ainda não é filosófica. Como dizíamos anteriormente, ela é pré-filosófica.


Desafios da Evangelização nas Circunstâncias Atuais

A Igreja tem um percurso bastante interessante nesses séculos de história. O que mais impressiona, no entanto, é a dinâmica e a  coragem dos primeiros cristãos que não se intimidaram frente às dificuldades do caminho. Exemplo disso são as comunidades cristãs que se formavam e que eram perseguidas pelo sistema governamental. Desses tempos, se nos apresenta uma lista incontável de mártires que, por amor à causa do Reino, derramaram o seu sangue.
Os Apóstolos, aos quais coube a sublime missão de fazer discípulos do Mestre “todos os povos” (Mt 28, 19), enfrentaram inúmeras dificuldades no que diz respeito ao processo de evangelização de judeus e, até mesmo, de pagãos. Evangelizar onde tudo é bem aceito é um processo fácil, mas evangelizar onde a consciência está anestesiada por uma cultura impregnada de uma falsa idéia de Deus e da sua proposta, torna-se quase impossível, primeiro por que as pessoas estão fechadas à Boa Nova e, depois, por que às vezes essas mesmas pessoas exerciam funções de poder social e poderiam acabar dizimando todos os que porventura se mantivessem hostis às decisões do governo vigente. Nesse contexto de medo e insegurança nasceram as primeiras comunidades cristãs. Comunidades essas que adquiriram uma característica heróica, visto que não se deixaram levar pelo medo, mas confiaram na assistência do Espírito Santo.
Nos tempos atuais, e de modo especial na nossa cultura ocidental, o cristianismo é aceitável, mas não praticado. É presente, mas contestado. É parte da sociedade, mas desrespeitado. Poderíamos dizer que a consciência das pessoas tornou-se uma consciência mesquinha, de aparências. Fazendo uso do lúdico, poderíamos dizer que a vida em sociedade tornou-se um constante suportar. Suportar para parecer concordar. Suportar em meio a sorrisos para não agredir. Mascarar a verdade é justamente o pecado mais grave de nossa sociedade. Por esse motivo, o campo de evangelização torna-se bem mais abrangente.
Nós como fazedores do evangelho nas circunstâncias atuais temos uma oportunidade de testemunharmos Jesus mesmo entre sombras. São constantes ataques a serem combatidos e más interpretações a serem corrigidas. São ideologias a serem desmascaradas e correntes de pensamentos a serem extirpados. A perseguição tornou-se sutil. Hoje já não temos tanto perigo em termos de exposição pública da fé, mas temos outros desafios. Talvez a falha da evangelização seja que formamos profissionais e a eles atribuímos o nome de “cristãos”, mas deixamos de lado a formação de consciências cristãs. Não basta legarmos uma religião.Temos que legar uma consciência religiosa que mexa com princípios pessoais. Uma consciência que mexa com as convicções. Não podemos deixar nossa fé a mercê de ataques sem fundamento. Hoje qualquer pessoa de doutrinas as mais diversas convence um cristão católico de que a verdade é tudo menos aquilo que a Igreja ensina como verdade fundamental. Ora, isso não é uma forma de perseguição? E os que conhecem Cristo (ou dizem que o conhecem) ficam sentados em casa, comendo biscoitos e tomando café na frente da tv ou do computador. Nosso maior desafio é o desacomodar para podermos formar consciências. Se permitirmos, a acomodação vai gerar profissionais e os profissionais vão gerar desinformados e deformados, e assim por diante numa cadeia interminável de grande lixo cristão. (Lixo cristão, entenda-se bem, é o profissionalismo cristão que se contenta em cumprir preceitos unicamente). Aí está o desfio da atualidade: lançarmos fora o lixo cristão. Precisamos de auto-formação, formação de consciências cristãs sadias. O desafio de entender Jesus como a verdade única da vida e, n’Ele a sua Igreja. Grande tarefa a ser cumprida!
Por fim, faz-se importante determinarmos os aspectos acima citados para fomentar o espírito missionário que muitas comunidades já renovaram com impressionante fervor. Nossa missão como nos tempos dos primeiros cristãos é levarmos Jesus Cristo. No entanto, não podemos fugir da realidade. Pés no chão e olhos no Alto. Vamos em busca de uma comunidade cristã mais autêntica, que não se amedronte frente aos desafios. Vamos em busca da formação de consciências, de pessoas, de vidas, de princípios cristãos. Eis o sonho de todo bom evangelizador nas novas circunstâncias. Eis o nosso sonho!

Questões Antropológicas - ENSAIOS FILOSÓFICOS


Tendo lido o livro “Dizer homem hoje” de Nunzio Galantino, e dada sua extensão e a relevância de seus assuntos, todos muito oportunos indubitavelmente, buscamos agregar e sintetizar dois capítulos que se nos parecem de um grau de relevância superior aos demais no que se refere à compreensão daquilo que vem a ser próprio da antropologia filosófica. Apreciações pessoais, citações e descrições são parte desse trabalho, resultados de leitura e reflexão.


LIVRO: Dizer Homem Hoje
       (“Dire ‘uomo’ oggi”)                                                                    
AUTOR: Nunzio Galantino
EDIÇÃO: 1º edição                                             
ANO: 2003
Nº DE PÁGINAS: 178
EDITORA: Paulus



Cap. Primeiro – “Antropologia, Antropologias e Antropologia Filosófica: Entre Semântica, História e Epistemologia”.

 Notadamente, antropologia é um termo polissêmico (abrange várias significações). Com efeito o autor, Nunzio Galantino, afirma ser este termo uma ocasião para um “arbítrio lingüístico”, uma vez que podemos considera-lo sob vários enfoques: físicos, filosófico, teológico, econômico, cultural, etc. Antes de mais nada, é preciso dizer que a antropologia não nasce com o aparecimento desta disciplina. Nasce, deveras, com o próprio homem. (cf. pgs. 9 – 10).
Da amplitude de significados do termo antropologia, advém a problemática: é possível obter uma visão de conjunto sobre o homem? Podemos considera-lo na sua totalidade? Eis aí o esforço da antropologia filosófica: procura-se compreender o homem na sua total significância, isto é, uma visão não fragmentada do mesmo, buscando evidenciar as bases fundamentais constituintes do homem, sem com isto ocasionar determinismos impróprios e injustificáveis.
Já na sua Ética a Nicômaco, Aristóteles usa o termo anthropologos ao referir-se ao magnânimo e ao exercício da magnanimidade. Afirma que o magnânimo não é mexeriqueiro, pois não se lhe é aprazível falar de si ou dos outros, nem tampouco ser louvado em detrimento dos demais. (cf. p. 10)
Na Patrística a significância do termo assume uma característica redutiva, que se estende até Leibniz e Malebranche. Neste período, antropologia é entendida como o exprimir-se antropomorficamente sobre Deus. No século XVI, recomeça-se a falar em antropologia de maneira articulada: “o debruçar-se do homem sobre si e suas questões...”. Erasmo de Roterdã e M. Montaigne: o homem entra em si e valoriza o necessário afugentando o supérfluo. Especificamente a compreensão de Montaigne sobre o termo: “...relatar as coisas sobre nós mesmos e os outros”. (cf. p. 11)
No século XVII a antropologia é assumida como a busca do “conhecimento de si”. Já no século subseqüente, XVIII, a perspectiva anterior é completada por Kant, na sua “Antropologia do ponto de vista pragmático”. Aqui a compreensão dá-se, sinteticamente falando, como “uma doutrina do conhecimento do homem ordenado sistematicamente”. No seu interior, há a distinção entre uma antropologia fisiológica e uma pragmática, sendo que a primeira determina aquilo que a natureza faz do homem e a segunda, conservando o especificamente ético, enquanto tende a aumentar as capacidades do homem, é vista como uma verdadeira e própria reflexão filosófica sobre o homem. Doutra parte, temos a visão mecanicista do homem presente e fundamentada em Descartes (1596 – 1650). Tomemos como exemplo, para fins de uma elucidação plausível desta concepção antropológica, o cartesiano Pierre Dionis. Este considera que a antropologia compõe-se, também, de duas partes: psicológica (trata o homem) e anatômica (corpo e afins). (cf. pgs. 12 – 14).
Maine de Biran (1766 – 1824), perspicazmente, na obra Novos ensaios de Antropologia (1823 – 1824), considera que o homem precisa ser entendido na sua integridade e não só numa parte ou sob um determinado aspecto. É crucial levar em consideração os relacionamentos entre sujeito idêntico (eu) e suas respectivas sensações, idéias, funções ou operações de todas as ordens orgânicas ou intelectuais mutáveis. Em A. Rosmini antropologia é a “ciência que trata da natureza humana”. Sob esse enfoque, o homem é a soma animal + espírito + sujeito, e é precisamente no sujeito que está a animalidade e a inteligência. (cf. p.14)
Nos seus Escritos filosóficos, Feuerbach (1804 – 1872) afirma que a “nova” filosofia é a síntese (dissolução) coerente entre teologia e antropologia, ou seja, a “nova” filosofia parece ter finalmente chegado à essência do ser humano, pelo viés do exercício racional que aos poucos poliu a teologia e antropologia e os dissolveu nessa “nova” filosofia. O feurbachiano consiste no materialismo no qual não há necessidade de recorrer a Deus para explicar a realidade: “o ponto de partida de toda filosofia é o homem”. Cria-se uma pseudo-independência divina, por assim dizer. Em síntese, dizemos que o período denominado Idade Moderna, assume a dissolução da teologia em antropologia. Karl Marx, nas suas Teses sobre Feuerbach , integra a perspectiva anti-hegeliana de Feurbach, enriquecendo-a com uma perspectiva antropológica com forte enraizamento na história. É a perspectiva do homem quando de seu contínuo processo de libertação pela práxis revolucionária, evitando toda forma de alienação. (cf p. 15)
Considerando os diversos enfoques do termo, sempre que há especificação de um determinado enfoque, a delimitação se torna fácil, uma vez que se capta o objetivo que cada antropologia se propõe a atingir. Em função disso, Nunzio Galantino divide ainda a antropologia em duas partes: aquela que analisa o homem a partir de determinados aspectos (antr. física, antr. filosófica, antr. científica, antr. teológica...) e a que faz referência ao método de abordagem do homem (ex.: antr. estruturalista, antr. marxista). (cf. p. 18).
Para exemplificar um dos enfoques, tomemos Bronislaw Malinowski (1842 – 1942). Ele é o expoente da assim chamada “antropologia cultural”. Segundo ele, antropologia cultural é um conjunto de “pesquisas de campo” que objetivam individualizar a especificidade das culturas particulares. Claramente, essa antropologia se enquadra na divisão primeira das subdivisões da antropologia segundo Galantino ( a que analisa o homem a partir de determinados aspectos). Por certo que aqui poderíamos falar de diversos enfoques da antropologia e suas respectivas especificações. Poupar-nos-emos desse trabalho, visto que há considerações mais importantes a serem feitas que simplesmente ficar explicando cada uma das antropologias existentes. (cf. p. 19).
Mais importante que desenvolver explicações para os diversos enfoques antropológicos existentes é explicitar o propriamente amplo e o especificamente interessante para o filósofo: a Antropologia filosófica. A riqueza da antropologia filosófica vem propriamente do interesse das diversas ciências sobre o homem ( a consideração da diversidade e da amplitude de seus aspectos). Contrariamente, a pobreza dá-se quando o antropólogo não caracteriza a sua indagação: “Quem é o homem?”. Nesse sentido, facilmente poderia acabar postulando determinismos, o que nem de longe atinge o vasto e o extenso do homem. (cf pgs.19-20).
Feuerbach diz que para além de uma antropologia filosófica, parece necessário falar de uma “filosofia antropológica”. A propósito disso, Kant já afirmara que uma filosofia com pretensão cosmopolita deve se organizar em torno de quatro interrogações: Que coisa posso pensar? Que coisa devo fazer? Que coisa é-me consentido esperar? Que coisa é o homem? (cf.p. 24).
Max Scheler, iniciador da Antropologia Moderna, diz-nos: “... de uma estrutura fundamental do ser homem deriva tudo aquilo que é monopólio específico, efeito e obra do homem”. Para ele, a pergunta ‘Quem é o homem?’ não nasce independente de sua existência e também não é fim em se mesma. Daqui deriva uma autêntica reflexão sobre o homem: de onde e por que nasce a pergunta antropológica? – Em seu texto “A Posição do homem no cosmos”, Max Scheler avança e desenvolve a antropologia filosófica como algo que se dá para além do contexto no qual o homem está inserido e os questionamentos próprios do seu tempo. Em linhas gerais, o “de onde” e o “por que” vêm do desejo de conhecer o homem e apresenta-se amplo e diverso ao longo dos séculos, nos múltiplos contextos culturais. (cf. pgs.25-33)
O autor, Nunzio Galantino, diz-nos que para efetivarmos um processo de reflexão autêntico e orgânico, há de se fazer o esforço para “ler de fora” tendo como objetivo uma visão global, que gradativamente se nos vai clareando mediante a consideração dos diversos contextos históricos. (cf. p.33)

“ Quando o homem, pasmado e admirado nos confrontos da realidade que vive e que é, a assume com profundidade, exercitando ali uma reflexão sistêmica, então nos encontramos diante da antropologia filosófica. O saber sapiencial em torno do homem, portanto, nasce da interconexão entre a maravilha que o nosso próprio ser suscita em nós e a reflexão sistemática”. (GALANTINO, Nunzio. Dizer homem hoje. p. 36. vol. I, 2003. Ed. Paulus).


Cap. Quarto – “A Antropologia filosófica depois de Max Scheler”

Anteriormente, quando nos referíamos ao capítulo primeiro da obra de Nunzio Galantino, Dizer homem hoje, fazíamos uma espécie de abordagem histórica dos múltiplos conceitos de antropologia, bem como das diversas antropologias e, por fim, tratávamos especificamente da antropologia filosófica, com particular interesse no legado de Max Scheler que, como já dissemos, foi o iniciador da Antropologia Moderna. Este percurso por entre os diversos contextos e o amadurecimento do conceito de antropologia é mais uma sucessão lógica que propriamente cronológica. Seria uma espécie de, sob a ótica de Galantino, “um percurso teorético”.Pois bem, passemos agora à Antropologia pós Max Scheler.
No “fazer filosofia” se coloca a proposta de antropológica do autor, Galantino, que, por sua vez, adota “uma das duas diretrizes em que se desenvolveu a Antropologia de Max Scheler”.
·             I- linha das ciências particulares. Linha esta desenvolvida por Arnold Gehlen, A. Portmann, Lèvi-Strauss: nas diversas perspectivas, se vai delineando “os traços caracterizantes do Fenômeno Humano” (cf. p.98).
              “Não tocam a essência , mas o devir do homem” (p.101)
·             II- “análises fenomenológicas da experiência originária que o homem tem da realidade”: o homem que se debruça sobre si mesmo e sobre o mundo ou “estudo do homem no homem”.(cf. p.99)

Diga-se, Antropologia Filosófica não é uma “filosofia existencial”. Antropologia Filosófica busca “colher um sentido do homem”. (cf. p.99).
A partir de Max Scheler a antropologia filosófica diz não, tanto a uma antropologia sob as categorias aristotélicas, quanto a um esquematismo kantiano, isto é, a uma recusa à “acepção idealístico formal do ‘transcendente’”. Quer se evitar, com isto, uma estrutura de pensamento, bem como, uma lógica, por assim dizer, divorciada da vida. (cf. p. 100).
Outro “não” de Max Scheler, além daqueles das categorias aristotélicas e do esquematismo kantiano, é o “não” a uma antropologia filosófica que visa exclusivamente o comportamento e a produção cultural do homem. Segundo Scheler, este “não” ajuda a amadurecer uma resposta sobre a essência do homem.
Ambos os “nãos”, remetem à uma compreensão do homem de forma análoga, comparativa ao que está fora, p. ex., o homem em relação ao mundo, o homem em relação aos animais (semelhanças e diferenças. Isto ainda não é uma reflexão do homem no homem). (cf. pgs.101 – 102).
Se nos apresenta agora um problema hermenêutico da antropologia filosófica: em função da impossibilidade de distinguir sujeito e objeto da pesquisa (neste caso o

sujeito é o homem e o objeto é, também o homem), dizemos que esta reflexão é, na verdade, uma autocompreensão humana, não tematizada. (cf. p.102).
Nos casos dos “nãos” para Max Scheler, p. ex., a autocompreensão já é plenamente tematizada. Por isso não é correto colocar o problema, resolvê-lo dando importância absoluta às ciências empíricas (homem – animal; ou homem nas suas produções culturais). (cf. p. 102)


                                                                   Davi Jonas Dietrich.

Exercício pré-filosófico

O trabalho a seguir é uma singela compreensão que, diga-se de passagem, antes de ter o mínimo conhecimento filosófico, apresentei ao formador do Seminário Maria Mater Ecclesiae em Itapecerica da Serra/SP, após a leitura do livro "Jesus Cristo" de Karl Adam, por ocasião das aulas de introdução à Cristologia.





INTRODUÇÃO

Esse trabalho tem como objetivo o conhecimento mais aprofundado da pessoa do Salvador, Jesus Cristo, que se nos deu a conhecer através de sua encarnação e, mais precisamente, pela sua Ressurreição. Quando olhamos a vida de Jesus, sentimo-nos impulsionados em entendê-lo cada vez mais. Esse conhecimento requer a observação de nossas próprias experiências de vida que facilmente podem ser comparadas às muitas de suas pregações, ensinamentos e testemunhos. Daí parte, portanto, o interesse em conhecer tão admirável sabedoria. Afinal, o que levaria um homem a ter pleno entendimento das coisas da vida, bem como seus conselhos que, se aplicados à vida prática nos levam a uma admirável vivência em muitos aspectos?
“Jesus de Nazaré - diriam estudiosos - é conhecido pelos seus grandes feitos em nosso meio. De fato, suas palavras remetem a um conhecimento raramente atribuído a um ser humano comum. Por isso que podemos considerá-lo sábio”.  Com um olhar um tanto mais aprofundado e levando em consideração a fé, buscaremos defender a tese de que Jesus verdadeiramente é o Filho de Deus e que a sua sabedoria não provinha meramente dos conhecimentos humanos, mas sim, de sua união com o Pai, sendo a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Muitas foram as pessoas que buscaram conhece-Lo mais através dos estudos e da vida de fé. Esse trabalho quer ser mais uma motivação de conhecimento da pessoa de Jesus, bem como de seus ensinamentos. Talvez pareça evidente a influência da fé sobre o trabalho e de fato o é. Diversas vezes usaremos a Sagrada Escritura como fonte de pesquisa e como prova da evidente Sabedoria do Mestre relatada na mesma.


                       CITAÇÕES BÍBLICAS QUE DEMONSTRAM A SABEDORIA DE JESUS:


Ao apresentarmos a Sagrada Escritura como fonte de pesquisa e como fonte de comprovação da evidente sabedoria de Cristo, não queremos reunir credibilidades científicas das quais já sabemos a existência. Pelo contrário, queremos demonstrar a nossa fé na Sabedoria divina de Jesus a partir de um mero apanhado de palavras atribuídas a Ele nos Evangelhos. Só nessas simples colocações perceberemos as muitas colocações de Jesus frente a casos quase que perdidos. “Arapucas” preparadas para o Mestre são por Ele facilmente desfeitas. Mas como se dá isso? A única explicação é essa: sua sabedoria provém de seu Pai que o enviou como causa de espanto para muitos “mestres da lei e fariseus hipócritas”.
Jesus Cristo foi líder por que foi sábio. Ao estudarmos sociologia, veremos ao longo da matéria que tal liderança pode ser própria (que é da própria pessoa) ou atribuída (cargo de liderança atribuída a uma pessoa). Jesus, como podemos imaginar, é um caso de liderança própria. De fato, antes mesmo que Ele nascesse, já lhe era própria, ou própria do Salvador, a tarefa de remir os pecados. Vejamos o que nos diz o Evangelho de Mateus a esse respeito (Mt 2, 6): “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre os clãs de Judá pois de ti sairá um chefe que apascentará Israel, o meu povo”. Ora, de fato, para exercer liderança de tal importância, é necessária uma sabedoria de grau muito elevado.
A seguir outras passagens que aludem à Sabedoria de Jesus:

Jesus, no deserto, usa de uma sabedoria incrível ao responder às colocações feitas por Satanás. É a Sabedoria de Deus que age nele, embora a sua humanidade por vezes lhe diga o contrário. Jesus não se deixa levar pelas ciladas do diabo. Ele sabe o que não é de Deus!
Mt 4, 1-11: “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome. Então, aproximando-se o tentador, disse-lhe, “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. Mas Jesus respondeu: “ Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”.
Então, o diabo o levou à Cidade  Santa e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: “Se és o Filho de Deus, atira-te para baixo, por que está escrito: “Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, e eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra”.
Respondeu-lhe Jesus: “ Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus”.
Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe: “Tudo te darei, se, prostrado me adorares”. Aí Jesus lhe disse: “Vai-te, Satanás, por que está escrito: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto”.
Com isso, o diabo o deixou. E os anjos de Deus se aproximaram e puseram-se a servi-lo”.
Bem aventuranças, sinal da Sabedoria divina de Jesus:
Mt 5, 3-12 : “Felizes os pobres no espírito porque deles é o Reino dos Céus. Felizes os mansos porque herdarão a terra. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós”.
As palavras de Jesus são superiores às dos escribas:
Mt 7, 28-29 :  “Aconteceu que ao terminar Jesus essas palavras, as multidões ficaram extasiadas com seu ensinamento, porque as ensinava com autoridade e não como os escribas”.
Mt 11, 19: “A Sabedoria é justificada pelas obras”.
Jesus por diversas vezes falou também em parábolas. Mais um modo de demonstrar conhecimento, sabedoria. O que mais chama atenção nessas parábolas é a coerência como comparação à vida prática. Além, é claro, da estruturação das parábolas, pois, de fato, podemos compreendê-las e isso torna mais fácil o entendimento da proposta de Deus como tal.
Mt 13, 53-56: “Quando Jesus acabou de contar essas parábolas, partiu dali e, dirigindo-se para a sua pátria, pôs-se a ensinar as pessoas que estavam na sinagoga, de tal sorte que elas se maravilhavam e diziam: “De onde lhe vêm essa Sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama a mãe dele Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não vivem todas entre nós? Donde então lhe vem todas essas coisas”.

Sabedoria de Jesus inclusive nos relacionamentos pessoais. (Dicas do Mestre):
Mt 18, 15-17: “Se o teu irmão pecar, vai corrigi-lo a sós. Se ele te ouvir, ganhaste o teu irmão. Se não te ouvir, porém, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda questão seja decidida pela palavra de duas ou três testemunhas.
Caso não lhes der ouvidos, dizei-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja der ouvido, trata-o como o gentio ou o publicano”.
 A sabedoria de Jesus, provinha também das sagradas escrituras das quais tinha pleno conhecimento:
Mt 21-42: “Disse Jesus: ‘que pensais a respeito do Cristo? Ele é filho de quem?’ Responderam-lhe: “de Davi”. Ao que Jesus lhes disse: “Como então Davi, falando sob inspiração, lhe chama Senhor, ao dizer: O Senhor disse ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo de teus pés?”.

Quanto aos discípulos de Jesus, sabemos que por diversas vezes os exortou de modo a torná-los mais santos e mais abertos.
Eis algumas correções da parte de Jesus quando seus discípulos erravam ou equivocavam-se:
(Lc 9, 46-48): “Houve entre eles uma discussão: qual deles seria o maior? Jesus, porém, conhecendo o pensamento de seus corações, tomou uma criança, colocou-a a seu lado e disse-lhes: ‘Aquele que receber uma criança como esta por causa do meu nome, recebe a mim, e aquele que me receber recebe aquele que me enviou; com efeito, aquele que no vosso meio for o menor, esse será grande’”.

(Mc 10, 14-15): “Vendo isso, Jesus ficou indignado e disse: “Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus. Em verdade vos digo: aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, na entrará nele”.

Em outros momentos, também quando fala aos discípulos através de sua magna sabedoria, Jesus pede que eles observem a realidade:

 (Mc 8, 27-29): “Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe, e no caminho, perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” Eles responderam:”João Batista”; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas”. “– E vós, perguntou ele, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Cristo”.

(Jo 4, 35): “Não dizeis vós: ‘Ainda quatro meses para a colheita?’ Pois bem, eu vos digo: Erguei vossos olhos e vede os campos: estão brancos para a colheita”.

(Mt 16, 1-3): “Os fariseus e saduceus vieram até ele e pediram-lhe, para pô-lo à prova, que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. Mas Jesus lhe respondeu: ‘Ao entardecer dizeis: ‘Vai fazer bom tempo, porque o céu está avermelhado; e de manhã: Hoje teremos tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. O aspecto do céu,sabeis interpretar, mas os sinais dos tempos, não sois capazes!”.

É Jesus também que na sua imensa sabedoria, defende os discípulos quando são criticados.
(Mc 2, 18-19; 7, 5-13): “Os discípulos de João e os fariseus jejuavam, e vieram dizer-lhe: ‘Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, e teus discípulos não jejuam?’ Jesus respondeu: ‘Podem os amigos do noivo jejuar enquanto o noivo está com eles? Enquanto o noivo estiver com eles, não podem jejuar’”. (...)
“Os fariseus e os escribas o interrogaram: ‘Por que não se comportam os teus discípulos segundo a tradição dos antigos, mas comem o pão com mão impuras?’ ele lhes respondeu: ‘Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim. Em vão me prestam culto; as doutrinas que ensinam são apenas mandamentos humanos. Abandonais o mandamento de Deus, apegando-vos à tradição dos homens’. E dizia-lhes: ‘Sabeis muito bem desprezar o mandamento de Deus para observar a vossa tradição. Com efeito, Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe, e: Aquele que amaldiçoar pai ou mãe certamente deve morrer. Vós, porém, dizeis: ‘Se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: os bens com que eu poderia te ajudar são: Corban, isto é, oferta sagrada – vós não o deixareis fazer mais nada por seu pai ou por sua mãe. Assim, invalidais a Palavra de Deus pela tradição que transmitistes. E fazeis muitas outras coisas desse gênero’”.
Pudemos perceber claramente que Jesus sabia dialogar com aqueles que se diziam sábios e entendidos. Dessa forma, manifestou que sua sabedoria superava em quantidade e qualidade à sabedoria meramente humana. Sem sombra de dúvida, podemos afirmar que a sabedoria que Jesus possuía provinha de seu Pai e que todas as vezes que respondia, procurava a força do Espírito que nele habitava. O sucesso de seus ensinamentos, por vezes misteriosos, são ainda hoje estudados, meditados, desvendados e, em muitos casos, vivenciados. Pessoas de todas as partes do mundo confiam nas palavras de Jesus para buscar um sentido para suas vidas. Como o próprio João relata ao final de seu evangelho dizendo que Jesus fez muito mais e que (assim penso eu) sua sabedoria é superior a de qualquer ser humano. “Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu: e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez. Se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam”. (Jo 21, 24-25). Deus se vale de sinais. Jesus é o mais perfeito elo entre o ser humano e Deus. É o mais vivo e intenso sinal do amor divino por nós, isto é, é a sabedoria viva e presente no meio de nós até os dias de hoje, segundo aquilo que nos prometeu.


 Frases do livro Jesus Cristo de Karl Adam:


“Na realidade, achamos nEle um homem único, que não se pode comparar a outras figuras da história na tentativa de compreende-lo. Só se explica e compreende por si próprio”.
“Pelo contrário, Jesus vê os homens tais como são, com as suas contradições e fraquezas. Chama-os ‘raça má e adúltera’”.
Estas frases remetem a um maior conhecimento do Mestre naquilo que diz respeito à sua sabedoria. Duas características a destacar: Jesus é incomparável e onisciente, ou seja, nenhum ser humano se pode ser comparado ao Mestre e nenhum ser humano possui tamanho conhecimento dos outros e de si mesmo como o conhecia Jesus.