Tendo lido o livro “Dizer homem hoje” de Nunzio Galantino, e dada sua
extensão e a relevância de seus assuntos, todos muito oportunos
indubitavelmente, buscamos agregar e sintetizar dois capítulos que se nos
parecem de um grau de relevância superior aos demais no que se refere à
compreensão daquilo que vem a ser próprio da antropologia filosófica.
Apreciações pessoais, citações e descrições são parte desse trabalho,
resultados de leitura e reflexão.
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LIVRO: Dizer
Homem Hoje
(“Dire ‘uomo’ oggi”)
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AUTOR: Nunzio
Galantino
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EDIÇÃO: 1º
edição
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ANO: 2003
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Nº DE PÁGINAS: 178
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EDITORA: Paulus
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Cap. Primeiro – “Antropologia,
Antropologias e Antropologia Filosófica: Entre Semântica, História e Epistemologia”.
Notadamente, antropologia é um
termo polissêmico (abrange várias significações). Com efeito o autor, Nunzio
Galantino, afirma ser este termo uma ocasião para um “arbítrio lingüístico”,
uma vez que podemos considera-lo sob vários enfoques: físicos, filosófico,
teológico, econômico, cultural, etc. Antes de mais nada, é preciso dizer que a
antropologia não nasce com o aparecimento desta disciplina. Nasce, deveras, com
o próprio homem. (cf. pgs. 9 – 10).
Da amplitude de significados do termo antropologia, advém a problemática:
é possível obter uma visão de conjunto sobre o homem? Podemos considera-lo na
sua totalidade? Eis aí o esforço da antropologia filosófica: procura-se
compreender o homem na sua total significância, isto é, uma visão não fragmentada
do mesmo, buscando evidenciar as bases fundamentais constituintes do homem, sem
com isto ocasionar determinismos impróprios e injustificáveis.
Já na sua Ética a Nicômaco, Aristóteles
usa o termo anthropologos ao
referir-se ao magnânimo e ao exercício da magnanimidade. Afirma que o magnânimo
não é mexeriqueiro, pois não se lhe é aprazível falar de si ou dos outros, nem
tampouco ser louvado em detrimento dos demais. (cf. p. 10)
Na Patrística a significância do termo assume uma característica
redutiva, que se estende até Leibniz e Malebranche. Neste período, antropologia
é entendida como o exprimir-se antropomorficamente sobre Deus. No século XVI,
recomeça-se a falar em antropologia de maneira articulada: “o debruçar-se do homem sobre si e suas
questões...”. Erasmo de Roterdã e M. Montaigne: o homem entra em si e
valoriza o necessário afugentando o supérfluo. Especificamente a compreensão de
Montaigne sobre o termo: “...relatar as
coisas sobre nós mesmos e os outros”. (cf. p. 11)
No século XVII a antropologia é assumida como a busca do “conhecimento de
si”. Já no século subseqüente, XVIII, a perspectiva anterior é completada por
Kant, na sua “Antropologia do ponto de vista pragmático”. Aqui a compreensão
dá-se, sinteticamente falando, como “uma
doutrina do conhecimento do homem ordenado sistematicamente”. No seu
interior, há a distinção entre uma antropologia fisiológica e uma pragmática,
sendo que a primeira determina aquilo que a natureza faz do homem e a segunda,
conservando o especificamente ético, enquanto tende a aumentar as capacidades
do homem, é vista como uma verdadeira e própria reflexão filosófica sobre o
homem. Doutra parte, temos a visão mecanicista do homem presente e fundamentada
em Descartes (1596 – 1650). Tomemos como exemplo, para fins de uma elucidação
plausível desta concepção antropológica, o cartesiano Pierre Dionis. Este
considera que a antropologia compõe-se, também, de duas partes: psicológica
(trata o homem) e anatômica (corpo e afins). (cf. pgs. 12 – 14).
Maine de Biran (1766 – 1824), perspicazmente, na obra Novos ensaios de Antropologia (1823 –
1824), considera que o homem precisa ser entendido na sua integridade e não só
numa parte ou sob um determinado aspecto. É crucial levar em consideração os
relacionamentos entre sujeito idêntico (eu) e suas respectivas sensações,
idéias, funções ou operações de todas as ordens orgânicas ou intelectuais
mutáveis. Em A. Rosmini
antropologia é a “ciência que trata da
natureza humana”. Sob esse enfoque, o
homem é a soma animal + espírito + sujeito, e é precisamente no sujeito
que está a animalidade e a inteligência. (cf. p.14)
Nos seus Escritos filosóficos, Feuerbach
(1804 – 1872) afirma que a “nova” filosofia é a síntese (dissolução) coerente
entre teologia e antropologia, ou seja, a “nova” filosofia parece ter
finalmente chegado à essência do ser humano, pelo viés do exercício racional
que aos poucos poliu a teologia e antropologia e os dissolveu nessa “nova”
filosofia. O feurbachiano consiste no materialismo no qual não há necessidade
de recorrer a Deus para explicar a realidade: “o ponto de partida de toda filosofia é o homem”. Cria-se uma
pseudo-independência divina, por assim dizer. Em síntese, dizemos que o período
denominado Idade Moderna, assume a dissolução da teologia em antropologia. Karl
Marx , nas suas Teses
sobre Feuerbach , integra a perspectiva anti-hegeliana de Feurbach,
enriquecendo-a com uma perspectiva antropológica com forte enraizamento na
história. É a perspectiva do homem quando de seu contínuo processo de
libertação pela práxis revolucionária, evitando toda forma de alienação. (cf p.
15)
Considerando os diversos enfoques do termo, sempre que há especificação
de um determinado enfoque, a delimitação se torna fácil, uma vez que se capta o
objetivo que cada antropologia se propõe a atingir. Em função disso, Nunzio
Galantino divide ainda a antropologia em duas partes: aquela que analisa o
homem a partir de determinados aspectos (antr. física, antr. filosófica, antr.
científica, antr. teológica...) e a que faz referência ao método de abordagem
do homem (ex.: antr. estruturalista, antr. marxista). (cf. p. 18).
Para exemplificar um dos enfoques, tomemos Bronislaw Malinowski (1842 –
1942). Ele é o expoente da assim chamada “antropologia cultural”. Segundo ele, antropologia
cultural é um conjunto de “pesquisas de campo” que objetivam individualizar a
especificidade das culturas particulares. Claramente, essa antropologia se
enquadra na divisão primeira das subdivisões da antropologia segundo Galantino
( a que analisa o homem a partir de determinados aspectos). Por certo que aqui
poderíamos falar de diversos enfoques da antropologia e suas respectivas especificações.
Poupar-nos-emos desse trabalho, visto que há considerações mais importantes a
serem feitas que simplesmente ficar explicando cada uma das antropologias
existentes. (cf. p. 19).
Mais importante que desenvolver explicações para os diversos enfoques
antropológicos existentes é explicitar o propriamente amplo e o especificamente
interessante para o filósofo: a Antropologia filosófica. A riqueza da
antropologia filosófica vem propriamente do interesse das diversas ciências
sobre o homem ( a consideração da diversidade e da amplitude de seus aspectos).
Contrariamente, a pobreza dá-se quando o antropólogo não caracteriza a sua
indagação: “Quem é o homem?”. Nesse
sentido, facilmente poderia acabar postulando determinismos, o que nem de longe
atinge o vasto e o extenso do homem. (cf pgs.19-20).
Feuerbach diz que para além de uma antropologia filosófica, parece
necessário falar de uma “filosofia antropológica”. A propósito disso, Kant já
afirmara que uma filosofia com pretensão cosmopolita deve se organizar em torno
de quatro interrogações: Que coisa posso pensar? Que coisa devo fazer? Que
coisa é-me consentido esperar? Que coisa é o homem? (cf.p. 24).
Max Scheler, iniciador da Antropologia Moderna, diz-nos: “... de uma estrutura fundamental do
ser homem deriva tudo aquilo que é monopólio específico, efeito e obra do
homem”. Para ele, a pergunta ‘Quem é
o homem?’ não nasce independente de sua existência e também não é fim em se
mesma. Daqui deriva uma autêntica reflexão sobre o homem: de onde e por que
nasce a pergunta antropológica? – Em seu texto “A Posição do homem no cosmos”,
Max Scheler avança e desenvolve a antropologia filosófica como algo que se dá
para além do contexto no qual o homem está inserido e os questionamentos
próprios do seu tempo. Em linhas gerais, o “de onde” e o “por que” vêm do
desejo de conhecer o homem e apresenta-se amplo e diverso ao longo dos séculos,
nos múltiplos contextos culturais. (cf. pgs.25-33)
O autor, Nunzio Galantino, diz-nos que para efetivarmos um processo de
reflexão autêntico e orgânico, há de se fazer o esforço para “ler de fora”
tendo como objetivo uma visão global, que gradativamente se nos vai clareando
mediante a consideração dos diversos contextos históricos. (cf. p.33)
“ Quando o homem, pasmado e admirado
nos confrontos da realidade que vive e que é, a assume com profundidade,
exercitando ali uma reflexão sistêmica, então nos encontramos diante da
antropologia filosófica. O saber sapiencial em torno do homem, portanto, nasce
da interconexão entre a maravilha que o nosso próprio ser suscita em nós e a
reflexão sistemática”.
(GALANTINO, Nunzio. Dizer homem hoje. p. 36. vol. I, 2003. Ed. Paulus).
Cap. Quarto – “A Antropologia filosófica depois de Max Scheler”
Anteriormente, quando nos referíamos ao capítulo primeiro da obra de
Nunzio Galantino, Dizer homem hoje, fazíamos
uma espécie de abordagem histórica dos múltiplos conceitos de antropologia, bem
como das diversas antropologias e, por fim, tratávamos especificamente da
antropologia filosófica, com particular interesse no legado de Max Scheler que,
como já dissemos, foi o iniciador da Antropologia Moderna. Este percurso por
entre os diversos contextos e o amadurecimento do conceito de antropologia é
mais uma sucessão lógica que propriamente cronológica. Seria uma espécie de,
sob a ótica de Galantino, “um percurso
teorético”.Pois bem, passemos agora à Antropologia pós Max Scheler.
No “fazer filosofia” se coloca a proposta de antropológica do autor,
Galantino, que, por sua vez, adota “uma
das duas diretrizes em que se desenvolveu a Antropologia de Max Scheler”.
·
I- linha
das ciências particulares. Linha esta desenvolvida por Arnold Gehlen, A.
Portmann, Lèvi-Strauss: nas diversas perspectivas, se vai delineando “os traços
caracterizantes do Fenômeno Humano” (cf. p.98).
“Não tocam a essência , mas o
devir do homem” (p.101)
·
II- “análises
fenomenológicas da experiência originária que o homem tem da realidade”: o
homem que se debruça sobre si mesmo e sobre o mundo ou “estudo do homem no
homem”.(cf. p.99)
Diga-se, Antropologia Filosófica não é uma “filosofia existencial”.
Antropologia Filosófica busca “colher um sentido do homem”. (cf. p.99).
A partir de Max Scheler a antropologia filosófica diz não, tanto a uma
antropologia sob as categorias aristotélicas, quanto a um esquematismo
kantiano, isto é, a uma recusa à “acepção idealístico formal do
‘transcendente’”. Quer se evitar, com isto, uma estrutura de pensamento, bem
como, uma lógica, por assim dizer, divorciada da vida. (cf. p. 100).
Outro “não” de Max Scheler, além daqueles das categorias aristotélicas e
do esquematismo kantiano, é o “não” a uma antropologia filosófica que visa
exclusivamente o comportamento e a produção cultural do homem. Segundo Scheler,
este “não” ajuda a amadurecer uma resposta sobre a essência do homem.
Ambos os “nãos”, remetem à uma compreensão do homem de forma análoga,
comparativa ao que está fora, p. ex., o homem em relação ao mundo, o homem em
relação aos animais (semelhanças e diferenças. Isto ainda não é uma reflexão do
homem no homem). (cf. pgs.101 – 102).
Se nos apresenta agora um problema hermenêutico da antropologia
filosófica: em função da impossibilidade de distinguir sujeito e objeto da
pesquisa (neste caso o
sujeito é o
homem e o objeto é, também o homem), dizemos que esta reflexão é, na verdade,
uma autocompreensão humana, não tematizada. (cf. p.102).
Nos casos dos “nãos” para Max Scheler, p. ex., a autocompreensão já é
plenamente tematizada. Por isso não é correto colocar o problema, resolvê-lo
dando importância absoluta às ciências empíricas (homem – animal; ou homem nas
suas produções culturais). (cf. p. 102)
Davi Jonas Dietrich.
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