terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Questões Antropológicas - ENSAIOS FILOSÓFICOS


Tendo lido o livro “Dizer homem hoje” de Nunzio Galantino, e dada sua extensão e a relevância de seus assuntos, todos muito oportunos indubitavelmente, buscamos agregar e sintetizar dois capítulos que se nos parecem de um grau de relevância superior aos demais no que se refere à compreensão daquilo que vem a ser próprio da antropologia filosófica. Apreciações pessoais, citações e descrições são parte desse trabalho, resultados de leitura e reflexão.


LIVRO: Dizer Homem Hoje
       (“Dire ‘uomo’ oggi”)                                                                    
AUTOR: Nunzio Galantino
EDIÇÃO: 1º edição                                             
ANO: 2003
Nº DE PÁGINAS: 178
EDITORA: Paulus



Cap. Primeiro – “Antropologia, Antropologias e Antropologia Filosófica: Entre Semântica, História e Epistemologia”.

 Notadamente, antropologia é um termo polissêmico (abrange várias significações). Com efeito o autor, Nunzio Galantino, afirma ser este termo uma ocasião para um “arbítrio lingüístico”, uma vez que podemos considera-lo sob vários enfoques: físicos, filosófico, teológico, econômico, cultural, etc. Antes de mais nada, é preciso dizer que a antropologia não nasce com o aparecimento desta disciplina. Nasce, deveras, com o próprio homem. (cf. pgs. 9 – 10).
Da amplitude de significados do termo antropologia, advém a problemática: é possível obter uma visão de conjunto sobre o homem? Podemos considera-lo na sua totalidade? Eis aí o esforço da antropologia filosófica: procura-se compreender o homem na sua total significância, isto é, uma visão não fragmentada do mesmo, buscando evidenciar as bases fundamentais constituintes do homem, sem com isto ocasionar determinismos impróprios e injustificáveis.
Já na sua Ética a Nicômaco, Aristóteles usa o termo anthropologos ao referir-se ao magnânimo e ao exercício da magnanimidade. Afirma que o magnânimo não é mexeriqueiro, pois não se lhe é aprazível falar de si ou dos outros, nem tampouco ser louvado em detrimento dos demais. (cf. p. 10)
Na Patrística a significância do termo assume uma característica redutiva, que se estende até Leibniz e Malebranche. Neste período, antropologia é entendida como o exprimir-se antropomorficamente sobre Deus. No século XVI, recomeça-se a falar em antropologia de maneira articulada: “o debruçar-se do homem sobre si e suas questões...”. Erasmo de Roterdã e M. Montaigne: o homem entra em si e valoriza o necessário afugentando o supérfluo. Especificamente a compreensão de Montaigne sobre o termo: “...relatar as coisas sobre nós mesmos e os outros”. (cf. p. 11)
No século XVII a antropologia é assumida como a busca do “conhecimento de si”. Já no século subseqüente, XVIII, a perspectiva anterior é completada por Kant, na sua “Antropologia do ponto de vista pragmático”. Aqui a compreensão dá-se, sinteticamente falando, como “uma doutrina do conhecimento do homem ordenado sistematicamente”. No seu interior, há a distinção entre uma antropologia fisiológica e uma pragmática, sendo que a primeira determina aquilo que a natureza faz do homem e a segunda, conservando o especificamente ético, enquanto tende a aumentar as capacidades do homem, é vista como uma verdadeira e própria reflexão filosófica sobre o homem. Doutra parte, temos a visão mecanicista do homem presente e fundamentada em Descartes (1596 – 1650). Tomemos como exemplo, para fins de uma elucidação plausível desta concepção antropológica, o cartesiano Pierre Dionis. Este considera que a antropologia compõe-se, também, de duas partes: psicológica (trata o homem) e anatômica (corpo e afins). (cf. pgs. 12 – 14).
Maine de Biran (1766 – 1824), perspicazmente, na obra Novos ensaios de Antropologia (1823 – 1824), considera que o homem precisa ser entendido na sua integridade e não só numa parte ou sob um determinado aspecto. É crucial levar em consideração os relacionamentos entre sujeito idêntico (eu) e suas respectivas sensações, idéias, funções ou operações de todas as ordens orgânicas ou intelectuais mutáveis. Em A. Rosmini antropologia é a “ciência que trata da natureza humana”. Sob esse enfoque, o homem é a soma animal + espírito + sujeito, e é precisamente no sujeito que está a animalidade e a inteligência. (cf. p.14)
Nos seus Escritos filosóficos, Feuerbach (1804 – 1872) afirma que a “nova” filosofia é a síntese (dissolução) coerente entre teologia e antropologia, ou seja, a “nova” filosofia parece ter finalmente chegado à essência do ser humano, pelo viés do exercício racional que aos poucos poliu a teologia e antropologia e os dissolveu nessa “nova” filosofia. O feurbachiano consiste no materialismo no qual não há necessidade de recorrer a Deus para explicar a realidade: “o ponto de partida de toda filosofia é o homem”. Cria-se uma pseudo-independência divina, por assim dizer. Em síntese, dizemos que o período denominado Idade Moderna, assume a dissolução da teologia em antropologia. Karl Marx, nas suas Teses sobre Feuerbach , integra a perspectiva anti-hegeliana de Feurbach, enriquecendo-a com uma perspectiva antropológica com forte enraizamento na história. É a perspectiva do homem quando de seu contínuo processo de libertação pela práxis revolucionária, evitando toda forma de alienação. (cf p. 15)
Considerando os diversos enfoques do termo, sempre que há especificação de um determinado enfoque, a delimitação se torna fácil, uma vez que se capta o objetivo que cada antropologia se propõe a atingir. Em função disso, Nunzio Galantino divide ainda a antropologia em duas partes: aquela que analisa o homem a partir de determinados aspectos (antr. física, antr. filosófica, antr. científica, antr. teológica...) e a que faz referência ao método de abordagem do homem (ex.: antr. estruturalista, antr. marxista). (cf. p. 18).
Para exemplificar um dos enfoques, tomemos Bronislaw Malinowski (1842 – 1942). Ele é o expoente da assim chamada “antropologia cultural”. Segundo ele, antropologia cultural é um conjunto de “pesquisas de campo” que objetivam individualizar a especificidade das culturas particulares. Claramente, essa antropologia se enquadra na divisão primeira das subdivisões da antropologia segundo Galantino ( a que analisa o homem a partir de determinados aspectos). Por certo que aqui poderíamos falar de diversos enfoques da antropologia e suas respectivas especificações. Poupar-nos-emos desse trabalho, visto que há considerações mais importantes a serem feitas que simplesmente ficar explicando cada uma das antropologias existentes. (cf. p. 19).
Mais importante que desenvolver explicações para os diversos enfoques antropológicos existentes é explicitar o propriamente amplo e o especificamente interessante para o filósofo: a Antropologia filosófica. A riqueza da antropologia filosófica vem propriamente do interesse das diversas ciências sobre o homem ( a consideração da diversidade e da amplitude de seus aspectos). Contrariamente, a pobreza dá-se quando o antropólogo não caracteriza a sua indagação: “Quem é o homem?”. Nesse sentido, facilmente poderia acabar postulando determinismos, o que nem de longe atinge o vasto e o extenso do homem. (cf pgs.19-20).
Feuerbach diz que para além de uma antropologia filosófica, parece necessário falar de uma “filosofia antropológica”. A propósito disso, Kant já afirmara que uma filosofia com pretensão cosmopolita deve se organizar em torno de quatro interrogações: Que coisa posso pensar? Que coisa devo fazer? Que coisa é-me consentido esperar? Que coisa é o homem? (cf.p. 24).
Max Scheler, iniciador da Antropologia Moderna, diz-nos: “... de uma estrutura fundamental do ser homem deriva tudo aquilo que é monopólio específico, efeito e obra do homem”. Para ele, a pergunta ‘Quem é o homem?’ não nasce independente de sua existência e também não é fim em se mesma. Daqui deriva uma autêntica reflexão sobre o homem: de onde e por que nasce a pergunta antropológica? – Em seu texto “A Posição do homem no cosmos”, Max Scheler avança e desenvolve a antropologia filosófica como algo que se dá para além do contexto no qual o homem está inserido e os questionamentos próprios do seu tempo. Em linhas gerais, o “de onde” e o “por que” vêm do desejo de conhecer o homem e apresenta-se amplo e diverso ao longo dos séculos, nos múltiplos contextos culturais. (cf. pgs.25-33)
O autor, Nunzio Galantino, diz-nos que para efetivarmos um processo de reflexão autêntico e orgânico, há de se fazer o esforço para “ler de fora” tendo como objetivo uma visão global, que gradativamente se nos vai clareando mediante a consideração dos diversos contextos históricos. (cf. p.33)

“ Quando o homem, pasmado e admirado nos confrontos da realidade que vive e que é, a assume com profundidade, exercitando ali uma reflexão sistêmica, então nos encontramos diante da antropologia filosófica. O saber sapiencial em torno do homem, portanto, nasce da interconexão entre a maravilha que o nosso próprio ser suscita em nós e a reflexão sistemática”. (GALANTINO, Nunzio. Dizer homem hoje. p. 36. vol. I, 2003. Ed. Paulus).


Cap. Quarto – “A Antropologia filosófica depois de Max Scheler”

Anteriormente, quando nos referíamos ao capítulo primeiro da obra de Nunzio Galantino, Dizer homem hoje, fazíamos uma espécie de abordagem histórica dos múltiplos conceitos de antropologia, bem como das diversas antropologias e, por fim, tratávamos especificamente da antropologia filosófica, com particular interesse no legado de Max Scheler que, como já dissemos, foi o iniciador da Antropologia Moderna. Este percurso por entre os diversos contextos e o amadurecimento do conceito de antropologia é mais uma sucessão lógica que propriamente cronológica. Seria uma espécie de, sob a ótica de Galantino, “um percurso teorético”.Pois bem, passemos agora à Antropologia pós Max Scheler.
No “fazer filosofia” se coloca a proposta de antropológica do autor, Galantino, que, por sua vez, adota “uma das duas diretrizes em que se desenvolveu a Antropologia de Max Scheler”.
·             I- linha das ciências particulares. Linha esta desenvolvida por Arnold Gehlen, A. Portmann, Lèvi-Strauss: nas diversas perspectivas, se vai delineando “os traços caracterizantes do Fenômeno Humano” (cf. p.98).
              “Não tocam a essência , mas o devir do homem” (p.101)
·             II- “análises fenomenológicas da experiência originária que o homem tem da realidade”: o homem que se debruça sobre si mesmo e sobre o mundo ou “estudo do homem no homem”.(cf. p.99)

Diga-se, Antropologia Filosófica não é uma “filosofia existencial”. Antropologia Filosófica busca “colher um sentido do homem”. (cf. p.99).
A partir de Max Scheler a antropologia filosófica diz não, tanto a uma antropologia sob as categorias aristotélicas, quanto a um esquematismo kantiano, isto é, a uma recusa à “acepção idealístico formal do ‘transcendente’”. Quer se evitar, com isto, uma estrutura de pensamento, bem como, uma lógica, por assim dizer, divorciada da vida. (cf. p. 100).
Outro “não” de Max Scheler, além daqueles das categorias aristotélicas e do esquematismo kantiano, é o “não” a uma antropologia filosófica que visa exclusivamente o comportamento e a produção cultural do homem. Segundo Scheler, este “não” ajuda a amadurecer uma resposta sobre a essência do homem.
Ambos os “nãos”, remetem à uma compreensão do homem de forma análoga, comparativa ao que está fora, p. ex., o homem em relação ao mundo, o homem em relação aos animais (semelhanças e diferenças. Isto ainda não é uma reflexão do homem no homem). (cf. pgs.101 – 102).
Se nos apresenta agora um problema hermenêutico da antropologia filosófica: em função da impossibilidade de distinguir sujeito e objeto da pesquisa (neste caso o

sujeito é o homem e o objeto é, também o homem), dizemos que esta reflexão é, na verdade, uma autocompreensão humana, não tematizada. (cf. p.102).
Nos casos dos “nãos” para Max Scheler, p. ex., a autocompreensão já é plenamente tematizada. Por isso não é correto colocar o problema, resolvê-lo dando importância absoluta às ciências empíricas (homem – animal; ou homem nas suas produções culturais). (cf. p. 102)


                                                                   Davi Jonas Dietrich.

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