terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ENSAIO FILOSÓFICO


ANÁLISE DA ADMIRAÇÃO INGÊNUA

                                                                                              (Síntese do texto de Gerd A. Bohrnheim)

                 A presente síntese tem por objetivo proporcionar  um conhecimento acerca da questão da admiração ingênua e do ato admirativo, com base no texto do filósofo Gerd Bohrnheim. É um estudo analítico desenvolvido sob o intuito de favorecer uma reflexão coerente embasada nos processos filosóficos ligados ao conhecer. A admiração ingênua ainda não é filosofar, mas é o plano inicial pré-filosófico. O pano de fundo da assim chamada “Análise da Admiração Ingênua” necessita ser o questionamento: O que é o conhecer?
               A primeira consideração a ser feita é a de que diante dos fenômenos (aquilo que se manifesta), para o iniciante em filosofia e mesmo para todo e qualquer filósofo no sentido do termo, necessita haver a admiração (primeiro passo, passo pré-filosófico). Quem já não se admira, não tem motivações para desenvolver uma reflexão posterior. Pois bem, a admiração ingênua pressupõe espontaneidade, é algo que advém naturalmente, deriva do sentido de abertura. Só é capaz de admirar-se aquele que é aberto.
              Para esclarecer o ato admirativo, o autor se usa do seu contrário: Sentido antiadmirativo (conformista) e pessimista (fechado). Aquele que não se admira, mesmo não sabendo, está em uma situação de contradição, visto que de algo ele necessariamente se admira: a capacidade que alguém possa ter de admirar-se. A isto podemos chamar de "admiração pessimista".
                             → ADMIRAÇÃO INGÊNUA ≠ PESSIMISMO INGÊNUO;
               Afirmações tais como "nada há de novo sob o sol" é categórica do pessimista da inteligência. Exemplo desse pessimismo é o cético (dúvidas acerca do real, recusa do sentido das coisas), é uma recusa da realidade na busca de sua neutalização.  Outro tipo de pessimismo é  o da sensibilidade. Neste caso, o indivíduo sofre a realidade como um mal.
               O pessimismo da inteligência pode ser ingênuo ou agressivo. Segundo ele, nada revela, nada tem sentido. Já o pessimismo da sensibilidade pode ser copnsiderado ingênuo por seu "plano pré-crítico", e um "certo grau de apatia".
              O pessimismo ingênuo apresenta comportamento afetado, desconfiança básica e, por isso mesmo, profundamente negativo da realidade. Na admiração ingênua dá-se o oposto: começa-se a perceber um sentido neste real, está aberta à realidade que a transcende. Em outras palavras, é simpática ao que se lhe manifesta. Heidegger chama esse sentido de abertura de expor-se ao ente, transportar-se ao aberto - (o Eu Amirante aberto ao ente).
              O objeto da admiração:  "tudo aquilo que tem força de ser é passível de admiração". (p.39)


Características da Admiração Ingênua:

* a afirmação da realidade compreendida como abertura ("disponibilidade amorosa e desinteressada"). A distinção que possibilita ao homem a admiração é a consciência;
* consciência de si;

Características da Consciência ingênua:

- distância: o homem sabe-se separado do que o cerca. Distância entre o Eu Admirante e o admirado; (“O homem não é pura exterioridade”, isso dissolveria a consciência; “o homem não é também, pura interioridade”, isso faria desaparecer a distância característica da consciência encarnada). Vale dizer que a consciência pactua com a exterioridade, mas não se confunde com ela; - (interioridade exterior/ Exterioridade interior);
- experiência da consciência ingênua: experiência da heterogeneidade; o radicalmente outro, o diferente, o diferente a si e em si;
                           
                     A admiração é diferente do pasmo, uma vez que este proporciona confusão. É diferente também da surpresa, mesmo que esta se pareça com a admiração por suprimir a indecisão e a indistinção. No entanto, surpresa para ser surpresa necessita haver algo imprevisto.
                   A admiração ingênua é importante para a posterior reflexão filosófica, mas ela em si ainda não é filosófica. Como dizíamos anteriormente, ela é pré-filosófica.


Desafios da Evangelização nas Circunstâncias Atuais

A Igreja tem um percurso bastante interessante nesses séculos de história. O que mais impressiona, no entanto, é a dinâmica e a  coragem dos primeiros cristãos que não se intimidaram frente às dificuldades do caminho. Exemplo disso são as comunidades cristãs que se formavam e que eram perseguidas pelo sistema governamental. Desses tempos, se nos apresenta uma lista incontável de mártires que, por amor à causa do Reino, derramaram o seu sangue.
Os Apóstolos, aos quais coube a sublime missão de fazer discípulos do Mestre “todos os povos” (Mt 28, 19), enfrentaram inúmeras dificuldades no que diz respeito ao processo de evangelização de judeus e, até mesmo, de pagãos. Evangelizar onde tudo é bem aceito é um processo fácil, mas evangelizar onde a consciência está anestesiada por uma cultura impregnada de uma falsa idéia de Deus e da sua proposta, torna-se quase impossível, primeiro por que as pessoas estão fechadas à Boa Nova e, depois, por que às vezes essas mesmas pessoas exerciam funções de poder social e poderiam acabar dizimando todos os que porventura se mantivessem hostis às decisões do governo vigente. Nesse contexto de medo e insegurança nasceram as primeiras comunidades cristãs. Comunidades essas que adquiriram uma característica heróica, visto que não se deixaram levar pelo medo, mas confiaram na assistência do Espírito Santo.
Nos tempos atuais, e de modo especial na nossa cultura ocidental, o cristianismo é aceitável, mas não praticado. É presente, mas contestado. É parte da sociedade, mas desrespeitado. Poderíamos dizer que a consciência das pessoas tornou-se uma consciência mesquinha, de aparências. Fazendo uso do lúdico, poderíamos dizer que a vida em sociedade tornou-se um constante suportar. Suportar para parecer concordar. Suportar em meio a sorrisos para não agredir. Mascarar a verdade é justamente o pecado mais grave de nossa sociedade. Por esse motivo, o campo de evangelização torna-se bem mais abrangente.
Nós como fazedores do evangelho nas circunstâncias atuais temos uma oportunidade de testemunharmos Jesus mesmo entre sombras. São constantes ataques a serem combatidos e más interpretações a serem corrigidas. São ideologias a serem desmascaradas e correntes de pensamentos a serem extirpados. A perseguição tornou-se sutil. Hoje já não temos tanto perigo em termos de exposição pública da fé, mas temos outros desafios. Talvez a falha da evangelização seja que formamos profissionais e a eles atribuímos o nome de “cristãos”, mas deixamos de lado a formação de consciências cristãs. Não basta legarmos uma religião.Temos que legar uma consciência religiosa que mexa com princípios pessoais. Uma consciência que mexa com as convicções. Não podemos deixar nossa fé a mercê de ataques sem fundamento. Hoje qualquer pessoa de doutrinas as mais diversas convence um cristão católico de que a verdade é tudo menos aquilo que a Igreja ensina como verdade fundamental. Ora, isso não é uma forma de perseguição? E os que conhecem Cristo (ou dizem que o conhecem) ficam sentados em casa, comendo biscoitos e tomando café na frente da tv ou do computador. Nosso maior desafio é o desacomodar para podermos formar consciências. Se permitirmos, a acomodação vai gerar profissionais e os profissionais vão gerar desinformados e deformados, e assim por diante numa cadeia interminável de grande lixo cristão. (Lixo cristão, entenda-se bem, é o profissionalismo cristão que se contenta em cumprir preceitos unicamente). Aí está o desfio da atualidade: lançarmos fora o lixo cristão. Precisamos de auto-formação, formação de consciências cristãs sadias. O desafio de entender Jesus como a verdade única da vida e, n’Ele a sua Igreja. Grande tarefa a ser cumprida!
Por fim, faz-se importante determinarmos os aspectos acima citados para fomentar o espírito missionário que muitas comunidades já renovaram com impressionante fervor. Nossa missão como nos tempos dos primeiros cristãos é levarmos Jesus Cristo. No entanto, não podemos fugir da realidade. Pés no chão e olhos no Alto. Vamos em busca de uma comunidade cristã mais autêntica, que não se amedronte frente aos desafios. Vamos em busca da formação de consciências, de pessoas, de vidas, de princípios cristãos. Eis o sonho de todo bom evangelizador nas novas circunstâncias. Eis o nosso sonho!

Questões Antropológicas - ENSAIOS FILOSÓFICOS


Tendo lido o livro “Dizer homem hoje” de Nunzio Galantino, e dada sua extensão e a relevância de seus assuntos, todos muito oportunos indubitavelmente, buscamos agregar e sintetizar dois capítulos que se nos parecem de um grau de relevância superior aos demais no que se refere à compreensão daquilo que vem a ser próprio da antropologia filosófica. Apreciações pessoais, citações e descrições são parte desse trabalho, resultados de leitura e reflexão.


LIVRO: Dizer Homem Hoje
       (“Dire ‘uomo’ oggi”)                                                                    
AUTOR: Nunzio Galantino
EDIÇÃO: 1º edição                                             
ANO: 2003
Nº DE PÁGINAS: 178
EDITORA: Paulus



Cap. Primeiro – “Antropologia, Antropologias e Antropologia Filosófica: Entre Semântica, História e Epistemologia”.

 Notadamente, antropologia é um termo polissêmico (abrange várias significações). Com efeito o autor, Nunzio Galantino, afirma ser este termo uma ocasião para um “arbítrio lingüístico”, uma vez que podemos considera-lo sob vários enfoques: físicos, filosófico, teológico, econômico, cultural, etc. Antes de mais nada, é preciso dizer que a antropologia não nasce com o aparecimento desta disciplina. Nasce, deveras, com o próprio homem. (cf. pgs. 9 – 10).
Da amplitude de significados do termo antropologia, advém a problemática: é possível obter uma visão de conjunto sobre o homem? Podemos considera-lo na sua totalidade? Eis aí o esforço da antropologia filosófica: procura-se compreender o homem na sua total significância, isto é, uma visão não fragmentada do mesmo, buscando evidenciar as bases fundamentais constituintes do homem, sem com isto ocasionar determinismos impróprios e injustificáveis.
Já na sua Ética a Nicômaco, Aristóteles usa o termo anthropologos ao referir-se ao magnânimo e ao exercício da magnanimidade. Afirma que o magnânimo não é mexeriqueiro, pois não se lhe é aprazível falar de si ou dos outros, nem tampouco ser louvado em detrimento dos demais. (cf. p. 10)
Na Patrística a significância do termo assume uma característica redutiva, que se estende até Leibniz e Malebranche. Neste período, antropologia é entendida como o exprimir-se antropomorficamente sobre Deus. No século XVI, recomeça-se a falar em antropologia de maneira articulada: “o debruçar-se do homem sobre si e suas questões...”. Erasmo de Roterdã e M. Montaigne: o homem entra em si e valoriza o necessário afugentando o supérfluo. Especificamente a compreensão de Montaigne sobre o termo: “...relatar as coisas sobre nós mesmos e os outros”. (cf. p. 11)
No século XVII a antropologia é assumida como a busca do “conhecimento de si”. Já no século subseqüente, XVIII, a perspectiva anterior é completada por Kant, na sua “Antropologia do ponto de vista pragmático”. Aqui a compreensão dá-se, sinteticamente falando, como “uma doutrina do conhecimento do homem ordenado sistematicamente”. No seu interior, há a distinção entre uma antropologia fisiológica e uma pragmática, sendo que a primeira determina aquilo que a natureza faz do homem e a segunda, conservando o especificamente ético, enquanto tende a aumentar as capacidades do homem, é vista como uma verdadeira e própria reflexão filosófica sobre o homem. Doutra parte, temos a visão mecanicista do homem presente e fundamentada em Descartes (1596 – 1650). Tomemos como exemplo, para fins de uma elucidação plausível desta concepção antropológica, o cartesiano Pierre Dionis. Este considera que a antropologia compõe-se, também, de duas partes: psicológica (trata o homem) e anatômica (corpo e afins). (cf. pgs. 12 – 14).
Maine de Biran (1766 – 1824), perspicazmente, na obra Novos ensaios de Antropologia (1823 – 1824), considera que o homem precisa ser entendido na sua integridade e não só numa parte ou sob um determinado aspecto. É crucial levar em consideração os relacionamentos entre sujeito idêntico (eu) e suas respectivas sensações, idéias, funções ou operações de todas as ordens orgânicas ou intelectuais mutáveis. Em A. Rosmini antropologia é a “ciência que trata da natureza humana”. Sob esse enfoque, o homem é a soma animal + espírito + sujeito, e é precisamente no sujeito que está a animalidade e a inteligência. (cf. p.14)
Nos seus Escritos filosóficos, Feuerbach (1804 – 1872) afirma que a “nova” filosofia é a síntese (dissolução) coerente entre teologia e antropologia, ou seja, a “nova” filosofia parece ter finalmente chegado à essência do ser humano, pelo viés do exercício racional que aos poucos poliu a teologia e antropologia e os dissolveu nessa “nova” filosofia. O feurbachiano consiste no materialismo no qual não há necessidade de recorrer a Deus para explicar a realidade: “o ponto de partida de toda filosofia é o homem”. Cria-se uma pseudo-independência divina, por assim dizer. Em síntese, dizemos que o período denominado Idade Moderna, assume a dissolução da teologia em antropologia. Karl Marx, nas suas Teses sobre Feuerbach , integra a perspectiva anti-hegeliana de Feurbach, enriquecendo-a com uma perspectiva antropológica com forte enraizamento na história. É a perspectiva do homem quando de seu contínuo processo de libertação pela práxis revolucionária, evitando toda forma de alienação. (cf p. 15)
Considerando os diversos enfoques do termo, sempre que há especificação de um determinado enfoque, a delimitação se torna fácil, uma vez que se capta o objetivo que cada antropologia se propõe a atingir. Em função disso, Nunzio Galantino divide ainda a antropologia em duas partes: aquela que analisa o homem a partir de determinados aspectos (antr. física, antr. filosófica, antr. científica, antr. teológica...) e a que faz referência ao método de abordagem do homem (ex.: antr. estruturalista, antr. marxista). (cf. p. 18).
Para exemplificar um dos enfoques, tomemos Bronislaw Malinowski (1842 – 1942). Ele é o expoente da assim chamada “antropologia cultural”. Segundo ele, antropologia cultural é um conjunto de “pesquisas de campo” que objetivam individualizar a especificidade das culturas particulares. Claramente, essa antropologia se enquadra na divisão primeira das subdivisões da antropologia segundo Galantino ( a que analisa o homem a partir de determinados aspectos). Por certo que aqui poderíamos falar de diversos enfoques da antropologia e suas respectivas especificações. Poupar-nos-emos desse trabalho, visto que há considerações mais importantes a serem feitas que simplesmente ficar explicando cada uma das antropologias existentes. (cf. p. 19).
Mais importante que desenvolver explicações para os diversos enfoques antropológicos existentes é explicitar o propriamente amplo e o especificamente interessante para o filósofo: a Antropologia filosófica. A riqueza da antropologia filosófica vem propriamente do interesse das diversas ciências sobre o homem ( a consideração da diversidade e da amplitude de seus aspectos). Contrariamente, a pobreza dá-se quando o antropólogo não caracteriza a sua indagação: “Quem é o homem?”. Nesse sentido, facilmente poderia acabar postulando determinismos, o que nem de longe atinge o vasto e o extenso do homem. (cf pgs.19-20).
Feuerbach diz que para além de uma antropologia filosófica, parece necessário falar de uma “filosofia antropológica”. A propósito disso, Kant já afirmara que uma filosofia com pretensão cosmopolita deve se organizar em torno de quatro interrogações: Que coisa posso pensar? Que coisa devo fazer? Que coisa é-me consentido esperar? Que coisa é o homem? (cf.p. 24).
Max Scheler, iniciador da Antropologia Moderna, diz-nos: “... de uma estrutura fundamental do ser homem deriva tudo aquilo que é monopólio específico, efeito e obra do homem”. Para ele, a pergunta ‘Quem é o homem?’ não nasce independente de sua existência e também não é fim em se mesma. Daqui deriva uma autêntica reflexão sobre o homem: de onde e por que nasce a pergunta antropológica? – Em seu texto “A Posição do homem no cosmos”, Max Scheler avança e desenvolve a antropologia filosófica como algo que se dá para além do contexto no qual o homem está inserido e os questionamentos próprios do seu tempo. Em linhas gerais, o “de onde” e o “por que” vêm do desejo de conhecer o homem e apresenta-se amplo e diverso ao longo dos séculos, nos múltiplos contextos culturais. (cf. pgs.25-33)
O autor, Nunzio Galantino, diz-nos que para efetivarmos um processo de reflexão autêntico e orgânico, há de se fazer o esforço para “ler de fora” tendo como objetivo uma visão global, que gradativamente se nos vai clareando mediante a consideração dos diversos contextos históricos. (cf. p.33)

“ Quando o homem, pasmado e admirado nos confrontos da realidade que vive e que é, a assume com profundidade, exercitando ali uma reflexão sistêmica, então nos encontramos diante da antropologia filosófica. O saber sapiencial em torno do homem, portanto, nasce da interconexão entre a maravilha que o nosso próprio ser suscita em nós e a reflexão sistemática”. (GALANTINO, Nunzio. Dizer homem hoje. p. 36. vol. I, 2003. Ed. Paulus).


Cap. Quarto – “A Antropologia filosófica depois de Max Scheler”

Anteriormente, quando nos referíamos ao capítulo primeiro da obra de Nunzio Galantino, Dizer homem hoje, fazíamos uma espécie de abordagem histórica dos múltiplos conceitos de antropologia, bem como das diversas antropologias e, por fim, tratávamos especificamente da antropologia filosófica, com particular interesse no legado de Max Scheler que, como já dissemos, foi o iniciador da Antropologia Moderna. Este percurso por entre os diversos contextos e o amadurecimento do conceito de antropologia é mais uma sucessão lógica que propriamente cronológica. Seria uma espécie de, sob a ótica de Galantino, “um percurso teorético”.Pois bem, passemos agora à Antropologia pós Max Scheler.
No “fazer filosofia” se coloca a proposta de antropológica do autor, Galantino, que, por sua vez, adota “uma das duas diretrizes em que se desenvolveu a Antropologia de Max Scheler”.
·             I- linha das ciências particulares. Linha esta desenvolvida por Arnold Gehlen, A. Portmann, Lèvi-Strauss: nas diversas perspectivas, se vai delineando “os traços caracterizantes do Fenômeno Humano” (cf. p.98).
              “Não tocam a essência , mas o devir do homem” (p.101)
·             II- “análises fenomenológicas da experiência originária que o homem tem da realidade”: o homem que se debruça sobre si mesmo e sobre o mundo ou “estudo do homem no homem”.(cf. p.99)

Diga-se, Antropologia Filosófica não é uma “filosofia existencial”. Antropologia Filosófica busca “colher um sentido do homem”. (cf. p.99).
A partir de Max Scheler a antropologia filosófica diz não, tanto a uma antropologia sob as categorias aristotélicas, quanto a um esquematismo kantiano, isto é, a uma recusa à “acepção idealístico formal do ‘transcendente’”. Quer se evitar, com isto, uma estrutura de pensamento, bem como, uma lógica, por assim dizer, divorciada da vida. (cf. p. 100).
Outro “não” de Max Scheler, além daqueles das categorias aristotélicas e do esquematismo kantiano, é o “não” a uma antropologia filosófica que visa exclusivamente o comportamento e a produção cultural do homem. Segundo Scheler, este “não” ajuda a amadurecer uma resposta sobre a essência do homem.
Ambos os “nãos”, remetem à uma compreensão do homem de forma análoga, comparativa ao que está fora, p. ex., o homem em relação ao mundo, o homem em relação aos animais (semelhanças e diferenças. Isto ainda não é uma reflexão do homem no homem). (cf. pgs.101 – 102).
Se nos apresenta agora um problema hermenêutico da antropologia filosófica: em função da impossibilidade de distinguir sujeito e objeto da pesquisa (neste caso o

sujeito é o homem e o objeto é, também o homem), dizemos que esta reflexão é, na verdade, uma autocompreensão humana, não tematizada. (cf. p.102).
Nos casos dos “nãos” para Max Scheler, p. ex., a autocompreensão já é plenamente tematizada. Por isso não é correto colocar o problema, resolvê-lo dando importância absoluta às ciências empíricas (homem – animal; ou homem nas suas produções culturais). (cf. p. 102)


                                                                   Davi Jonas Dietrich.

Exercício pré-filosófico

O trabalho a seguir é uma singela compreensão que, diga-se de passagem, antes de ter o mínimo conhecimento filosófico, apresentei ao formador do Seminário Maria Mater Ecclesiae em Itapecerica da Serra/SP, após a leitura do livro "Jesus Cristo" de Karl Adam, por ocasião das aulas de introdução à Cristologia.





INTRODUÇÃO

Esse trabalho tem como objetivo o conhecimento mais aprofundado da pessoa do Salvador, Jesus Cristo, que se nos deu a conhecer através de sua encarnação e, mais precisamente, pela sua Ressurreição. Quando olhamos a vida de Jesus, sentimo-nos impulsionados em entendê-lo cada vez mais. Esse conhecimento requer a observação de nossas próprias experiências de vida que facilmente podem ser comparadas às muitas de suas pregações, ensinamentos e testemunhos. Daí parte, portanto, o interesse em conhecer tão admirável sabedoria. Afinal, o que levaria um homem a ter pleno entendimento das coisas da vida, bem como seus conselhos que, se aplicados à vida prática nos levam a uma admirável vivência em muitos aspectos?
“Jesus de Nazaré - diriam estudiosos - é conhecido pelos seus grandes feitos em nosso meio. De fato, suas palavras remetem a um conhecimento raramente atribuído a um ser humano comum. Por isso que podemos considerá-lo sábio”.  Com um olhar um tanto mais aprofundado e levando em consideração a fé, buscaremos defender a tese de que Jesus verdadeiramente é o Filho de Deus e que a sua sabedoria não provinha meramente dos conhecimentos humanos, mas sim, de sua união com o Pai, sendo a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Muitas foram as pessoas que buscaram conhece-Lo mais através dos estudos e da vida de fé. Esse trabalho quer ser mais uma motivação de conhecimento da pessoa de Jesus, bem como de seus ensinamentos. Talvez pareça evidente a influência da fé sobre o trabalho e de fato o é. Diversas vezes usaremos a Sagrada Escritura como fonte de pesquisa e como prova da evidente Sabedoria do Mestre relatada na mesma.


                       CITAÇÕES BÍBLICAS QUE DEMONSTRAM A SABEDORIA DE JESUS:


Ao apresentarmos a Sagrada Escritura como fonte de pesquisa e como fonte de comprovação da evidente sabedoria de Cristo, não queremos reunir credibilidades científicas das quais já sabemos a existência. Pelo contrário, queremos demonstrar a nossa fé na Sabedoria divina de Jesus a partir de um mero apanhado de palavras atribuídas a Ele nos Evangelhos. Só nessas simples colocações perceberemos as muitas colocações de Jesus frente a casos quase que perdidos. “Arapucas” preparadas para o Mestre são por Ele facilmente desfeitas. Mas como se dá isso? A única explicação é essa: sua sabedoria provém de seu Pai que o enviou como causa de espanto para muitos “mestres da lei e fariseus hipócritas”.
Jesus Cristo foi líder por que foi sábio. Ao estudarmos sociologia, veremos ao longo da matéria que tal liderança pode ser própria (que é da própria pessoa) ou atribuída (cargo de liderança atribuída a uma pessoa). Jesus, como podemos imaginar, é um caso de liderança própria. De fato, antes mesmo que Ele nascesse, já lhe era própria, ou própria do Salvador, a tarefa de remir os pecados. Vejamos o que nos diz o Evangelho de Mateus a esse respeito (Mt 2, 6): “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre os clãs de Judá pois de ti sairá um chefe que apascentará Israel, o meu povo”. Ora, de fato, para exercer liderança de tal importância, é necessária uma sabedoria de grau muito elevado.
A seguir outras passagens que aludem à Sabedoria de Jesus:

Jesus, no deserto, usa de uma sabedoria incrível ao responder às colocações feitas por Satanás. É a Sabedoria de Deus que age nele, embora a sua humanidade por vezes lhe diga o contrário. Jesus não se deixa levar pelas ciladas do diabo. Ele sabe o que não é de Deus!
Mt 4, 1-11: “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome. Então, aproximando-se o tentador, disse-lhe, “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. Mas Jesus respondeu: “ Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”.
Então, o diabo o levou à Cidade  Santa e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: “Se és o Filho de Deus, atira-te para baixo, por que está escrito: “Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, e eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra”.
Respondeu-lhe Jesus: “ Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus”.
Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe: “Tudo te darei, se, prostrado me adorares”. Aí Jesus lhe disse: “Vai-te, Satanás, por que está escrito: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto”.
Com isso, o diabo o deixou. E os anjos de Deus se aproximaram e puseram-se a servi-lo”.
Bem aventuranças, sinal da Sabedoria divina de Jesus:
Mt 5, 3-12 : “Felizes os pobres no espírito porque deles é o Reino dos Céus. Felizes os mansos porque herdarão a terra. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós”.
As palavras de Jesus são superiores às dos escribas:
Mt 7, 28-29 :  “Aconteceu que ao terminar Jesus essas palavras, as multidões ficaram extasiadas com seu ensinamento, porque as ensinava com autoridade e não como os escribas”.
Mt 11, 19: “A Sabedoria é justificada pelas obras”.
Jesus por diversas vezes falou também em parábolas. Mais um modo de demonstrar conhecimento, sabedoria. O que mais chama atenção nessas parábolas é a coerência como comparação à vida prática. Além, é claro, da estruturação das parábolas, pois, de fato, podemos compreendê-las e isso torna mais fácil o entendimento da proposta de Deus como tal.
Mt 13, 53-56: “Quando Jesus acabou de contar essas parábolas, partiu dali e, dirigindo-se para a sua pátria, pôs-se a ensinar as pessoas que estavam na sinagoga, de tal sorte que elas se maravilhavam e diziam: “De onde lhe vêm essa Sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama a mãe dele Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não vivem todas entre nós? Donde então lhe vem todas essas coisas”.

Sabedoria de Jesus inclusive nos relacionamentos pessoais. (Dicas do Mestre):
Mt 18, 15-17: “Se o teu irmão pecar, vai corrigi-lo a sós. Se ele te ouvir, ganhaste o teu irmão. Se não te ouvir, porém, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda questão seja decidida pela palavra de duas ou três testemunhas.
Caso não lhes der ouvidos, dizei-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja der ouvido, trata-o como o gentio ou o publicano”.
 A sabedoria de Jesus, provinha também das sagradas escrituras das quais tinha pleno conhecimento:
Mt 21-42: “Disse Jesus: ‘que pensais a respeito do Cristo? Ele é filho de quem?’ Responderam-lhe: “de Davi”. Ao que Jesus lhes disse: “Como então Davi, falando sob inspiração, lhe chama Senhor, ao dizer: O Senhor disse ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo de teus pés?”.

Quanto aos discípulos de Jesus, sabemos que por diversas vezes os exortou de modo a torná-los mais santos e mais abertos.
Eis algumas correções da parte de Jesus quando seus discípulos erravam ou equivocavam-se:
(Lc 9, 46-48): “Houve entre eles uma discussão: qual deles seria o maior? Jesus, porém, conhecendo o pensamento de seus corações, tomou uma criança, colocou-a a seu lado e disse-lhes: ‘Aquele que receber uma criança como esta por causa do meu nome, recebe a mim, e aquele que me receber recebe aquele que me enviou; com efeito, aquele que no vosso meio for o menor, esse será grande’”.

(Mc 10, 14-15): “Vendo isso, Jesus ficou indignado e disse: “Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus. Em verdade vos digo: aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, na entrará nele”.

Em outros momentos, também quando fala aos discípulos através de sua magna sabedoria, Jesus pede que eles observem a realidade:

 (Mc 8, 27-29): “Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe, e no caminho, perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” Eles responderam:”João Batista”; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas”. “– E vós, perguntou ele, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Cristo”.

(Jo 4, 35): “Não dizeis vós: ‘Ainda quatro meses para a colheita?’ Pois bem, eu vos digo: Erguei vossos olhos e vede os campos: estão brancos para a colheita”.

(Mt 16, 1-3): “Os fariseus e saduceus vieram até ele e pediram-lhe, para pô-lo à prova, que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. Mas Jesus lhe respondeu: ‘Ao entardecer dizeis: ‘Vai fazer bom tempo, porque o céu está avermelhado; e de manhã: Hoje teremos tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. O aspecto do céu,sabeis interpretar, mas os sinais dos tempos, não sois capazes!”.

É Jesus também que na sua imensa sabedoria, defende os discípulos quando são criticados.
(Mc 2, 18-19; 7, 5-13): “Os discípulos de João e os fariseus jejuavam, e vieram dizer-lhe: ‘Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, e teus discípulos não jejuam?’ Jesus respondeu: ‘Podem os amigos do noivo jejuar enquanto o noivo está com eles? Enquanto o noivo estiver com eles, não podem jejuar’”. (...)
“Os fariseus e os escribas o interrogaram: ‘Por que não se comportam os teus discípulos segundo a tradição dos antigos, mas comem o pão com mão impuras?’ ele lhes respondeu: ‘Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim. Em vão me prestam culto; as doutrinas que ensinam são apenas mandamentos humanos. Abandonais o mandamento de Deus, apegando-vos à tradição dos homens’. E dizia-lhes: ‘Sabeis muito bem desprezar o mandamento de Deus para observar a vossa tradição. Com efeito, Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe, e: Aquele que amaldiçoar pai ou mãe certamente deve morrer. Vós, porém, dizeis: ‘Se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: os bens com que eu poderia te ajudar são: Corban, isto é, oferta sagrada – vós não o deixareis fazer mais nada por seu pai ou por sua mãe. Assim, invalidais a Palavra de Deus pela tradição que transmitistes. E fazeis muitas outras coisas desse gênero’”.
Pudemos perceber claramente que Jesus sabia dialogar com aqueles que se diziam sábios e entendidos. Dessa forma, manifestou que sua sabedoria superava em quantidade e qualidade à sabedoria meramente humana. Sem sombra de dúvida, podemos afirmar que a sabedoria que Jesus possuía provinha de seu Pai e que todas as vezes que respondia, procurava a força do Espírito que nele habitava. O sucesso de seus ensinamentos, por vezes misteriosos, são ainda hoje estudados, meditados, desvendados e, em muitos casos, vivenciados. Pessoas de todas as partes do mundo confiam nas palavras de Jesus para buscar um sentido para suas vidas. Como o próprio João relata ao final de seu evangelho dizendo que Jesus fez muito mais e que (assim penso eu) sua sabedoria é superior a de qualquer ser humano. “Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu: e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez. Se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam”. (Jo 21, 24-25). Deus se vale de sinais. Jesus é o mais perfeito elo entre o ser humano e Deus. É o mais vivo e intenso sinal do amor divino por nós, isto é, é a sabedoria viva e presente no meio de nós até os dias de hoje, segundo aquilo que nos prometeu.


 Frases do livro Jesus Cristo de Karl Adam:


“Na realidade, achamos nEle um homem único, que não se pode comparar a outras figuras da história na tentativa de compreende-lo. Só se explica e compreende por si próprio”.
“Pelo contrário, Jesus vê os homens tais como são, com as suas contradições e fraquezas. Chama-os ‘raça má e adúltera’”.
Estas frases remetem a um maior conhecimento do Mestre naquilo que diz respeito à sua sabedoria. Duas características a destacar: Jesus é incomparável e onisciente, ou seja, nenhum ser humano se pode ser comparado ao Mestre e nenhum ser humano possui tamanho conhecimento dos outros e de si mesmo como o conhecia Jesus.

Questões Humanísticas - ENSAIOS UNIVERSITÁRIOS

Trabalho realizado na aula de Humanismo e Cultura Religiosa, tendo como base o texto: "Quem és, Jesus de Nazaré?" fornecido pelo professor José Romaldo Klering - PUCRS.



ROTEIRO DE ESTUDOS:

          1. Que elementos para um perfil de Jesus podem ser identificados no texto?
          2. Partindo do texto, descreva a realidade sócio-político-econômico-cultural-religiosa da Palestina do tempo de Jesus.
          3. Jesus não se enquadra nas estruturas da sociedade do seu tempo nem deixa que o enquadrem. Isto tem a ver com a sua missão. O que ele queria propriamente?
          4. Cite e caracterize os partidos político-religiosos da Palestina do tempo de Jesus, descritos no texto.
          5. Relacione a realidade da Palestina do tempo de Jesus com a atual realidade brasileira.

Respostas:
1.    Ao nos depararmos com os diversos aspectos da vida de Jesus, adquirimos uma visão mais ampla, não só da mística que o rodeia, mas também de sua atuação na sociedade como um homem “normal” que viveu em tudo a condição humana. No texto “Quem és, Jesus de Nazaré?”, obtemos uma porção de características que a ele são atribuídas. Consta, por exemplo, o Jesus fisicamente robusto, atraente. Era um como os outros, profeta e mais que profeta, missionário itinerante, operário profissional, não fazia distinção entre pessoas, “de todos e para todos”. Para a família tinha “perdido o juízo”. No entanto, o elemento que mais nos chama a atenção em Jesus é a sua humildade a não ostentação de cargos e posições elevadas. A posição que assume é a de servidor, o último, o filho de José.

2.    O Povo de Israel, quanto ao aspecto social, era um povo de agricultores, pastores e artesãos. Política e Religião estavam unidas, e, talvez, por esse motivo, havia uma multidão de seitas, partidos e grupos de caráter político-religioso. Quanto ao contexto cultural, a vida de Jesus dá-se num estilo tipicamente oriental.

3.    Em determinado momento do Evangelho, Jesus afirma que seu anseio principal é o de que todos sejam um só rebanho e um só pastor; portanto, não se pode haver distinção entre pessoas. Todos fazem parte de seu projeto, os que já estão em seu redil e, também, os espalhados pelos outros redis. A missão de Jesus é universal. Jesus é o pastor e seu desejo é que todos façam parte de seu rebanho.

4.    A seguir algumas descrições dos partidos político-religiosos do tempo de Jesus na Palestina:

- Saduceus: grupo aristocrático e rico do país (inclusive os sacerdotes). Neste grupo estavam, também, proprietários rurais que ocupavam altos cargos da administração judaica;
- Fariseus: cumpridores estritos da lei, no entanto, sob caráter moralista e legalista. Evitavam as impurezas. Via de regra, achavam-se superiores e desprezavam os demais. Acreditavam que suas exteriorizações legais garantiam a salvação;
- Escribas: entendidos da Lei. A maior parte dos fariseus era escriba ou doutor que se dedicavam à aplicação da lei nas sinagogas. Alguns ferozmente nacionalistas, eram conservadores. Sob sua interpretação o Messias devia ser dominador político e religioso: o Messias castigador dos povos não judaicos e de suas “tradições pagãs”.

5.    Observando os dados que emanam da Palestina do tempo de Jesus na sua comparação com os tempos atuais na realidade brasileira, chegamos a um dado bastante interessante no que diz respeito à desigualdade social. No tempo de Jesus, um grande contingente do povo, a maioria, vivia numa situação paupérrima, de pobreza e miséria extremas, enquanto que poucos desfrutavam de uma riqueza muito grande (em geral reis, imperadores, Cônsules, proprietários rurais, etc.). Eis um aspecto que pode ser comparado com a situação do Brasil na atualidade! Segundo pesquisas recentes, cerca de sete milhões e meio de pessoas vivem em situação de miséria extrema no Brasil! O poder e a riqueza de um país com dimensões incomparáveis de fauna, flora, matéria prima, petrolífera, industrial, etc. são concentrados nas mãos de uma pequena minoria.  Enquanto o trabalhador honesto luta cotidianamente para, com muito sacrifício, adquirir sua casa própria, certas autoridades esbanjam dinheiro na compra de apartamentos para si e para os seus. Alguns apartamentos estimados em seis milhões de reais, por incrível que pareça!

CRÔNICA

Aos leitores, solicito desculpas pelo atrevimento de relatar em crônica uma experiência de minha vida. Mas julgo particularmente importante valorizar um trabalho que desenvolvi quando estava no Propedêutico, em Gravataí, Seminário São José, Arquidiocese de Porto Alegre. Trabalho solicitado pela então professora de Português, Maria Janete Schreiber do Nascimento. (31/08/2010).



Semana Vocacional: Serviço, Partilha, Aprendizagem


Nas andanças de minha vida, mais um episódio merece um destaque: a dita “semana vocacional”. Que agradável foi a experiência e quantas recordações se me ficaram impressas! Talvez por que esse evento tenha sido único no ano até o presente momento, ou mesmo, por que o local escolhido para desenvolvermos a atividade, município de Charqueadas, tenha favorecido para dispensar um maior afeto ao episódio. Cito como possível fator de destaque o local escolhido, não por que já conhecesse anteriormente o município ou por que tivesse algum vínculo familiar ou de amizade lá, mas por que, desde o princípio, senti-me muito bem recebido na casa da família na qual me hospedei. Sinceramente falando, achei que fui melhor recebido ali que em casa de alguns parentes meus.
Semana cheia: orações, trabalho de promoção vocacional, refeições nas comunidades, missas, visitas às escolas, convivência na família que me acolheu, conhecimento de novas pessoas, tudo isso é o que posso sintetizar como sendo a experiência de “semana vocacional”. Friso que o intuito maior, além de pura e simplesmente promover um conhecimento efetivo das mais diversas vocações, era, também, fazer o convite e manifestar apoio à ordenação diaconal do sr. Paulo Ricardo Leite. Nessas circunstancias, tornei-me seu amigo e de sua família.
Relembrando os episódios mais significativos, merece especial referência uma figura ilustre: a “Tia Cláudia”. Esta acompanhou a equipe na qual eu estava trabalhando. Ela é uma leiga muito engajada e durante toda a semana se fez presente nos três turnos para o serviço de animação vocacional. O que me surpreendeu na “Tia Cláudia” foi o seu histórico de vida bastante conturbado. Estando à mesa para o jantar na quinta feira à noite, ela partilhou comigo a vida difícil que tivera quando criança em razão dos problemas de convivência entre a sua mãe e o padrasto (lembrando-se aqui que seu pai falecera novo; enforcou-se em virtude de uma esquizofrenia). Mas o que mais me surpreendeu é que qualquer pessoa que convive com a ela, sente a alegria que transmite. Qualquer pessoa que observa sua relação com seus filhos e seu marido, jamais diria que esta mesma mulher teria passado por experiências de tamanho impacto. Hoje ela é uma mulher alegre, com cinco filhos bem educados e felizes. Está bem resolvida financeiramente. Que curioso não é? Pois é, vivendo e aprendendo.
Por fim, quero dizer que a “semana vocacional” foi formidável não por que eu ensinei a alguém algo sobre vocação, mas por que pude compartilhar de momentos com pessoas que me ensinaram algo de novo: a alegria da vida, a superação, a aprendizagem, mesmo nas circunstâncias que poderiam motivar certo descrédito da vida, desconfiança constante, tristeza permanente. Aprendi que se faz necessária uma maturidade para entender que é mais feliz aquele que aproveita o ensinamento provindo das dificuldades. De fato, é preciso aprender com os obstáculos e não apenas supera-los.

                                                                                                                              Davi Jonas Dietrich

Trabalho de Humanismo e Cultura Religiosa - ENSAIOS UNIVERSITÁRIOS

1.    Ao nos depararmos com os atuais contextos históricos e culturais, percebemos a grande problemática existente no  que diz respeito ao desenvolvimento de determinadas possibilidades humanas. Em outras palavras: certas realidades que tornam inviáveis um saudável desenvolvimento humano na sua integralidade . Para fins de um maior aprofundamento da compreensão acerca do atual contexto histórico e cultural, fazemos a seguir um apontamento de realidades concernentes ao mesmo.
Algo muito latente em nosso tempo é o individualismo crescente e cada vez mais radicado na vida das pessoas. A partilha e a fraternidade já são realidades que não perfazem o rotineiro. O comum hoje é aquele pensamento categórico, perfeitamente ilustrativo da situação de individualismo: “cada um cuida da sua vidinha, eu faço o que quero e os outros que se virem”. Fazer o que se quer fazer, sem a preocupação com o outro, determina, também, o egocentrismo, uma busca exacerbada pelo que satisfaz o ego. Exemplo disso é a instrumentalização ou “coisificação” do outro, reduzir o outro a um objeto de prazer.
O relativismo, resultado do pluralismo de “verdades” ou “pseudo-verdades” bem como do indiferentismo,  também impede a possibilidade de um desenvolvimento de convicções. Diante do plural, já não se encontram motivações para a busca da Verdade, esta se torna também relativa. Além da pretensão de relativizar a Verdade, o relativismo equipara quaisquer situações: “Tudo é bom. Essa verdade é boa, mas poderia ser outra que seria igualmente boa”.
Outro processo altamente característico de nossos tempos é o processo de aceleração da evolução tecnológica, sobretudo o desenvolvimento e a necessidade da internet, entendida  – equivocadamente – como  meio quase que primordial das  relações. Com efeito, logo que conhecemos uma pessoa e estabelecemos certa amizade, solicitamos o seu endereço  de email ou perguntamos se ela faz parte de alguma rede de relacionamentos.  Uma  influência negativa que se pode citar no que diz respeito à vida do ser humano é que oferecendo a todos uma comodidade sempre mais crescente, possa favorecer uma certa frieza em se tratando dos relacionamentos humanos como tal, a proximidade física, etc.
Algo que influencia tenazmente na vida das pessoas e que se verifica sobretudo nas grandes cidades é a questão econômica, de modo particular os grandes contrastes existentes entre ricos muito ricos e pobres muito pobres, miseráveis.
Deparamo-nos, também, com as catástrofes naturais oriundas do aquecimento global e da depredação do meio ambiente, sempre mais comuns, e sua influência no que diz respeito à adaptação necessária a toda a sociedade (no que se refere tanto à localização geográfica onde mais costumeiramente se dão as catástrofes,  quanto à construção civil que necessita repensar certas estruturas para evitar danos demasiado grandes).
Outra realidade a ser apontada é, indubitavelmente, o gradativo aumento do descomprometimento ético e moral, verificado na intensa e precoce erotização, provinda do “obscurecimento e falsificação do verdadeiro sentido da sexualidade humana”. Isto resulta naquela, já referida por muitos, sociedade hedonista que não se preocupa com o ensino de valores e princípios.
Por fim, há de se dizer que existem inúmeros fatores que nos nossos tempos acabam por não possibilitar um desenvolvimento humano no sentido do termo.  Isto por que humanidade supõe racionalidade, supõe inteligência. Precisamos, portanto, apelar à humanidade dos indivíduos da sociedade. Contrariamente do que muitos pensam não somos apenas um produto da sociedade, uma mera consequencia do período histórico-cultural. Podemos fazer a diferença, usando de nossa racionalidade para modificar as realidades não favoráveis e abrindo as portas para um novo horizonte de possibilidades humanas.

2. Para responder sinteteticamente ao que se propõe sobre uma visão para além das Visões Reducionistas e/ou Pessimistas, precisamos compreender o ser humano diferentemente daquela visão niilista que chega a afirmar que o ser humano é um nada. Concordamos que se comparado às proporções do cosmos ele possa sim ser tido como ser insignificante, mas a diferença aqui consiste na sua transcendência. O ser humano transcende a si próprio. A razão lhe possibilita isso. A filosofia científica considera o ser  humano um animal racional, político, religioso, cultural/linguístico, ludo. Talvez isso resuma adequadamente o ser humano, para dar uma visão mais geral e não ramificada (ou sob uma só visão de ser humano).

3. Sabendo das diversas Visões de Homem, bem como conhecendo o atual contexto histórico-cultural que vivo, consigo perceber efetivamente a complexidade do ser humano nas suas questões. Este ser humano é multifacetário e evidentemente nao poderia ser diferente. Talvez aí resida a beleza: na diversidade de realidades que, apesar dos problemas nelas constantes, não tornam o essencial do ser humano menos belo ou importante. Talvez algumas situações manhcem sua dignidade ou distorçam suas proporcionalidades, porém tanto mais belo é  o centro, a essência, a admirável capacidade de contornar problemas complexos tais como os que neste trabalho citei. Aspiro no futuro ser sacerdote para Deus a serviço do Homem. Isto é algo grandioso e se relaciona intrínsecamente com a disciplina de Humanismo e Cultura Religiosa. Com efeito há validade no jargão: “primeiro o homem depois o santo”. Para finalizar todo este esmerado trabalho de apresentação de dados e detecção de realidades, quero valer-me de algumas considerações. No que diz respeito ao campo religioso: Hoje temos novos “ídolos”, ou como dizia o Papa Bento XVI na entrevista a Petter Seewald, há um florescimento de um “novo paganismo”. É o ateísmo prático existente na vida de um grande contingente de pessoas, uma não abertura, ou mesmo indiferença, para com o Transcendente. Talvez esse seja um dos grandes motivos das mesquinharias e tolices oriundas de tantas realidades, algumas das quais citadas neste trabalho. Já não se busca o Transcendente, a Verdade. Hoje, a Verdade e o Transcendente se reduzem a si e aos gostos e satisfações pessoais. Quanto à cultura, uma dica importante: há de se adquirir para nós que somos estudantes de filosofia e, de modo particular, alunos de Humanismo e Cultura Religiosa, um comprometimento na construção de uma cultura de justiça e paz, corrigindo as possíveis falhas de nossa sociedade e difundindo os seus valores e virtudes, deixando-os de herança para as novas gerações. Por fim, quanto ao Mercado de Trabalho, não se pode fechar os olhos para atual situação de concorrência nele existente. A sociedade quer exemplares imbatíveis. No Mercado de Trabalho, subsistem apenas os melhores, os mais competentes. Esta é a mentalidade subjacente em toda sociedade. Por isso,  se queremos ter voz e vez na sociedade, necessitamos transormá-la a partir de nós com uma competência não pouco desafiadora e utilizando dos meios oportunos para difundir valores que fomentem o desejo de uma construção de uma sociedade guiada  à luz do verdadeiro interesse comum, do benefício de todos e não somente de partes isoladas.

Questões Humanísticas - ENSAIOS UNIVERSITÁRIOS

  1. Quem sou eu?

  1. “Será tudo pura ilusão”: Que argumentos você apresenta a favor ou contra a  tese da imortalidade?

  1. Procura descrever o processo da Personalização.



1.     No decorrer de nossa existência, muitas são as vezes em que nos questionamos sobre nossa própria existência e sobre nosso próprio ser. As respostas reducionistas e deterministas acerca de nossa identidade e de nossa finalidade parecem não satisfazer as exigências do questionamento: quem sou eu? Para alguns o homem é o categórico “caniço pensante”, para outros, prepondera a visão niilista cujo conteúdo exprime que o ser humano não passa de um verdadeiro nada. A grande máxima de Blaise Pascal parece, de certo modo, explicitar a incógnita, o mistério, o “Sem Fundo” humano: “O homem se gaba, eu o rebaixo; o homem se rebaixa, eu o gabo. O contradigo sempre até que ele compreenda que é um monstro incompreensível”. (Pascal, Pensamentos, 130). Com efeito, pouco ou nada se pode determinar a respeito do que seja o homem. Ele sempre é capaz de surpreender, modificar-se, reestruturar-se.
Parece contraditório o que vamos considerar agora. No entanto é verdade que mesmo que o ser humano, como o diz Pascal, seja incompreensível, não é impossível investigar a seu respeito. Destarte, tenhamos claro: nunca chegaremos ao ponto de determinar o ser humano na sua totalidade num ou noutro conceito; a reflexão sobre o homem só é possível aceitando essa consideração. Os esforços da antropologia filosófica vão ao encontro disso: formulam questionamentos, esmeram-se em teses e respostas cuja dinâmica da abertura lhes permite sempre de novo reciclar o já considerado.
Reflexão Filosófica de Homem: o homem voltado para si mesmo, como que debruçado sobre si e seus aspectos, na busca constante de compreensão acerca de si; um ser cujas dimensões são incomensuráveis.
 A própria antropologia pode ser exemplificada a partir de quatro dimensões: filosófica (o homem voltado para si mesmo, reflexões acerca de seu ser e de sua existência/esforço contínuo); cultural (o homem a partir de suas produções); científica (o homem que pode ser analisado cientificamente, biologicamente, historicamente); teológica (o homem entendido a partir de uma concepção que aceita o divino e o reflete com o divino como ‘pano de fundo’ / “o abismo do homem dialoga com o abismo de Deus”). Em linhas gerais, as antropologias citadas, que por sua vez possuem outras ramificações, dão-nos uma certa noção da amplitude dos aspectos humanos. Além disso, fala-se também de categorias humanas (ou o ser humano sob diferentes enfoques): ser orgânico, ser psíquico, ser social, ser inteligente, ser consciente, ser religioso. O homem, pertencente aos três reinos: animal, vegetal, mineral; o homem que aspira o infinito, à liberdade;
A pergunta que motiva o presente texto – “quem sou eu?” – é sugestiva, por que parece primar uma experiência individual. Poderia haver a pretensão de contar uma historia a respeito de um ou de outro. Cair-se-ia em mais um fútil determinismo (entenda-se por determinismo uma tentativa frustrada de determinar o ser humano considerando um ou outro, ou mesmo, alguns aspectos). Se assim fosse, não se estaria respondendo à questão, visto que a historicidade é considerável para ir se abeirando do que vem a ser o homem – (que, diga-se de passagem, está em contínuo processo de devir) – embora ela por si só não seja suficiente. Não é possível responder quem somos numa resposta que seja suficiente ou que satisfaça todos os anseios a esse respeito. Terminamos com algo que agora se nos vem ao pensamento: tudo o que dissermos a propósito do homem poderá um dia estar certo. Entretanto, do homem nunca se poderá dizer tudo.

2.           Certamente é deveras difícil posicionar-se a respeito de algo que ainda não possuímos experiência. Neste sentido, falamos apropriadamente sobre o tema da imortalidade. Talvez o levantamento de argumentos possa esclarecer uma determinada posição, a favor ou contra.
Quando do exercício de reflexão sobre o ser humano, sobretudo no que concerne à antropologia filosófica que, por sua vez, procura encontrar respostas a esse propósito num sentido não ramificado, mas global, fala-se de uma auto-transcendência humana: “o homem transcende infinitamente o homem”. O ser humano supera-se. Em outras palavras, não se contenta tão somente com o vigente. Para tanto, o sentido de abertura (“O Homem é um ser aberto” – Karl Jaspers) lhe possibilita aperfeiçoamento de seus dons, de seus pensamentos, de suas atitudes, de suas produções, de suas crenças, etc. É um ser que por natureza não se contenta com a morte, tanto que busca compreender, entender tanto quanto possível do mistério. Aspira ao infinito, à imortalidade. Max Scheler diz que o que diferencia o homem dos animais é o espírito. O espírito, simplificadamente, é a abertura ao infinito, condição do ser que é aberto. A auto-transcendência lhe projeta para além da morte: um desejo de vida que supera, não se apraz no fato da morte física como fim de tudo.
Já nos filósofos da antiguidade, como por exemplo Sócrates, se percebe um voltar-se a essa questão. Lançam argumentos buscando justificar a imortalidade da alma. Ainda mais: os grandes filósofos são uma tentativa de encontrar um sentido face ao problema da morte. Percebe-se que o desejo metafísico é o motor que impulsiona o ser humano para além da natureza. O ser humano é um ser aberto ao infinito no qual se inscreve em uma historicidade e nela se manifesta e talvez o sentido para toda sua existência se concentre justamente na questão da imortalidade. A vida é pujante. Para Freud é “impulso vital”. Em outras palavras, não queremos a morte. O desejo primordial é viver, e viver bem. Vê-se com clareza isso, por exemplo, no avanço da biologia e da medicina, sobretudo a partir do final dos anos 90, na busca da cura, da longevidade e da qualidade de vida.
Por fim, posicionar-se, como o já dito no início, a favor ou contra a imortalidade é um exercício árduo. Exige argumentação sobremaneira. Mesmo assim, cremos, não se chegaria a uma resposta completamente satisfatória. A esse respeito (imortalidade), preferimos suspender juízo. Pode ser e pode não ser. Há argumentos filosóficos a favor e contra. Defender ou combater algo sobre o qual ainda não se fez uma reflexão mais aprofundada, ao nosso ver, seria ignorância. O fato é: o ser humano aspira à imortalidade, não se contenta com a morte. Essa projeção, ou tendência ao infinito, pode ser entendida como justificativa para a imortalidade, ou não. A argumentação pode ser satisfatória ou não. A posição de caráter individual – que nem cogitamos a possibilidade de fazer – poderia ser satisfatória ou não. Uma coisa é certa: se houvesse determinação, fechamento de questão, mesmo que a respeito da questão da imortalidade, estaríamos, a nosso ver, agredindo o sentido de abertura humana. O mais prudente talvez seja silenciar e refletir mais a propósito da questão da imortalidade do homem, clarear os conceitos e, posteriormente, exercitar-se na tentativa de argumentação e posição.

  1. Antes de explicitarmos apropriadamente o processo de personalização faz-se necessário evidenciar um pouco do que vem a ser o conceito. Persona, do latim, designa a máscara de personagens teatrais. Mais abrangentemente, o termo possui a significância de compreensão do homem em suas relações com o mundo. O ser humano, vai se construindo gradativamente no processo histórico. Aos poucos se vai nascendo o humano no homem. Uma criança, ao nascer, é puro instinto. Ao longo de sua vida vai-se construindo, mediante compreensões mais efetivas de si, dos valores, do Outro.
É importante considerar que é só na relação intersubjetiva que o ser humano se vai tornando Pessoa no sentido do termo. É na relação com o Outro (este “Outro” refere-se à dimensão da Alteridade – O cosmos, outro ser humano e Deus) que se descobrem os valores e que se descobre a si mesmo. A sua abertura, interação, sobretudo com o outro humano, lhe possibilita a construção de sua personalidade. Fala-se, também de Pessoa, no parâmetro religioso, quando se busca exprimir a relação com Deus Pessoa (diga-se de passagem, que no âmbito religioso a compreensão de Deus não se deve confundir com o absoluto metafísico que é absoluto racional).
Por fim, há de se dizer que a personalização é o processo que designa o tornar-se pessoa, na consideração da Alteridade. Vamos nos tornando pessoa, construindo nossa personalidade, à medida em que se interage e se aprende do mundo, do outro ser humano, do divino. No sentido de abertura, ato de reciclar-se periodicamente, pode-se dizer, também, que o ser humano constrói-se nas suas relações consigo mesmo. Do processo de personalização nunca se poderá dizer acabado (dá-se a vida inteira e a todo momento).

CATEQUESE COMO MEIO DE EVANGELIZAÇÃO

INTRODUÇÃO





A catequese é, por excelência, o meio mais eficaz da ação evangelizadora em todos os períodos da História da Igreja. Isso porque a catequese tem a função de iluminar a razão humana de tal modo que ela possa compreender a vida e os ensinamentos de Cristo, bem como a doutrina da Igreja. Por esse motivo, a catequese não está restrita aos encontros que preparam as crianças e os jovens para receberem os Sacramentos. Seria correto, portanto, afirmar que a vida de fé e o estar inserido em uma comunidade são fontes de apreensão das coisas de Deus, logo, são catequese!
O documento de Aparecida quando nos propõem com o Mestre um encontro que, por sua vez, nasce da experiência de Deus, quer dizer, na verdade, que ao depararmo-nos com a Palavra e a Doutrina, isso se quisermos ser fiéis a Deus, necessitamos responder generosamente. Essa resposta se traduz em obras. Obras essas que nada mais são do que a prática de tudo aquilo que provém da mesma Palavra e Doutrina. Esse processo de escuta, apreensão e generosidade de resposta é o que chamamos de catequese eficaz. “Catequese” aqui entendida como anúncio e “eficaz” como resposta generosa.
Por fim, é importante dizer que somos convidados a responder generosamente ao Chamado que Deus nos faz. Isso por que a missão da catequese é o “querigma”, o primeiro anúncio. Anúncio-convite à santidade.




















Parte I – A Revelação Divina.


Antes de compreendermos a importância da catequese como meio de evangelização, precisamos verificar a questão da Revelação de Deus. Ao estudarmos e aprofundarmos o tema, perceberemos que na Sagrada Escritura está presente de modo completo a Revelação que por sua vez é transmitida e esclarecida pelo Magistério. Diz-se que na Sagrada Escritura está contido o próprio Deus. Sua Vontade, seus desígnios, seu plano de Amor e o convite à Santidade. No entanto, a proposta de Deus não fere a liberdade do homem. Deus o fez livre e por esse motivo fê-lo à “sua imagem e semelhança”.
Para compreendermos o significado da Escritura Sagrada e Revelação, segue-se uma citação do livro “Sou católico, vivo a minha fé” da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): “Sagrada Escritura é o conjunto dos Escritos judaicos (Antigo Testamento = AT) e cristãos (Novo Testamento = NT). O termo Testamento significa “Aliança”, já a palavra Bíblia, é uma palavra de origem grega e significa “livros”. (...) “O Antigo Testamento é chamado de Antiga Aliança, pois narra a aliança feita por Deus com Abraão, Isaac, Jacó e José, os Patriarcas do Povo de Deus e, posteriormente, com Moisés e todo o Povo, liberto da escravidão do Egito.” (...) No Novo Testamento “Deus toma iniciativa de comunicar sua presença, entrando na história dos homens por meio do Filho enviado ao mundo. Este é o instante decisivo para a vida e a história do mundo. Deus nasce em Belém, revela-se na história dos homens como o Messias esperado pelo AT, e com seus discípulos inaugura um novo tempo por suas palavras e ações”.
Como vimos, Deus na sua infinita bondade e misericórdia quis, por sua própria iniciativa, manifestar-se ao homem em um longo processo chamado “Historia da Salvação”. Diversos personagens fizeram parte desse processo bem como diversos modos de proceder do Povo de Deus. Desta forma, poderíamos dizer que a catequese meramente entendida como “encontros” (como é definida em várias comunidades), é uma mesquinhez frente à sua máxima expressão que se encontra na vida e no proceder.
Deus é o catequista por excelência. É a própria vida e influencia no modo de proceder das pessoas. Quer ser exemplo a ser seguido por meio de Jesus. Por esse motivo, entendemos o catequista como alguém do povo que vivencia os acontecimentos hodiernos e procede segundo sua própria convicção e crença na Verdade Revelada.
A catequese deve ser um constante convite ao encontro pessoal com a fonte reveladora, com o “Senhor e Juiz da história” com o “Pai Nosso”. Encontro esse que manifesta demasiadamente o “querigma”, primeiro anúncio, fervor na ação. Esse Deus, fonte da vida quer atuar por meio dos seus, escolhidos previamente. E quem são os seus? Todos nós! Todos fomos chamados por Deus à existência e por isso somos anunciadores natos da Verdade contida em cada ser que habita esse planeta. Somos pequenos mananciais que apontam para o “Mar da Vida”.
“No centro da catequese encontramos essencialmente uma Pessoa, a de Jesus de Nazaré. Filho único do Pai..., que sofreu e morreu por nós e agora, ressuscitado, vive conosco para sempre...Catequizar...é desvendar na Pessoa de Cristo todo desígnio eterno de Deus que nela se realiza. É procurar compreender o significado dos gestos e das palavras de Cristo e dos sinais realizados por Ele”. Catechese Tradendae (CT 5).
“A finalidade definitiva da catequese é: ‘levar à comunhão com Jesus Cristo: só ele pode conduzir ao amor do Pai no Espírito e fazer-nos participar da vida da Santíssima Trindade”. Catecismo da Igreja Católica (CIC 426).


Parte II – “Catequese Renovada”, Meio Eficaz de Evangelização:

Depois de estudarmos as propriedades da Revelação divina, entraremos em um tema bastante típico da evangelização em massa. É a chamada “catequese renovada”. Deixemos claro, porém, que não há nenhuma oposição ao sistema catequético vigente, porém queremos apenas convidar aos que acompanham o desenvolvimento deste trabalho, a um aprofundamento do conceito “catequese”.
Entendendo um pouco a partir do que vimos a respeito de Revelação, chegamos à definição de um novo conceito de catequese. Assim sendo, a catequese não é meramente um momento de aprendizagem passageiro que visa unicamente à “formatura” da eucaristia, à “formatura” da crisma. Catequese é Vida. Modos de proceder condizentes à minha convicção.
“A missão catequética não se improvisa e nem fica ao sabor do imediatismo ou do gosto de uma pessoa. Catequese é uma ação da Igreja e um projeto assumido pela comunidade, como um ‘processo de educação comunitária, permanente, progressiva, ordenada, orgânica e sistemática da fé’”. Diretório Nacional Catequético (DNC 319) e documento Catequese Renovada (CR 318).
“A catequese precisa de uma organização apropriada para responder às situações e realidades diversificadas das comunidades e que seja integrada na pastoral orgânica, para evitar a dispersão de forças”. “Ela será eficaz se a comunidade, paróquia e diocese tiverem um projeto de evangelização” (DNC 320).
Como vimos, a catequese é eficaz se nos esforçamos em um verdadeiro projeto de evangelização que se mede principalmente pelas atitudes, pela prática das virtudes cristãs no cotidiano. É o esforço no testemunho de vida e a força conquistada mediante a vivência de uma reforçada espiritualidade.
O papa João Paulo II lembra aos bispos no Documento Catechesi Tradendae de que a catequese deve ser mais do que os conhecidos encontros de preparação para recepção de um sacramento. Deve ser algo inerente à vida, às atividades, deve ser o exercício do cristianismo. Segue a citação: “Senhores bispos, que a preocupação em promover uma catequese ativa e eficaz não ceda nada frente a qualquer outra preocupação seja ela qual for. O Vosso papel principal deve ser o de suscitar e alimentar nas vossas Igrejas uma verdadeira paixão pela catequese. Uma paixão, porém, que encarne numa organização adaptada e eficaz, e empenhe na atividade as pessoas, os meios e os instrumentos e também os recursos financeiros. Podeis ter a certeza disso: se a catequese for bem feita nas vossas Igrejas locais, tudo o mais será feito com maior facilidade. Por outro lado, se o vosso zelo tiver de vos impor algumas vezes a tarefa ingrata de denunciar desvios, corrigir erros, ele deve proporcionar-vos muito mais frequentemente a alegria e a consolação de ver as vossas Igrejas florescentes, porque a catequese aí é dada como o quer o Senhor”. (CT  63).
Desta forma, podemos conceber a ideia de que somos portadores de um grande tesouro. Temos a fé transmitida vivamente pelos tantos “catequistas” que nos circundam. Estes,os “catequistas” por sua vez são aqueles que, unidos às convicções pessoais, nos inspiram a sermos também nós, catequistas no sentido mais profundo do termo: transmissores da Realidade que é Deus, portadores do fervor querigmático, praticantes das virtudes cristãs. 
“No Novo Testamento o termo ‘catequese’ significa dar uma instrução a respeito da fé. Em sua origem o termo se liga a um verbo que sigifica ‘fazer ecoar’ (Kat-ekhéo). A catequese, de fato, tem por objetivo último fazer escutar e repercutir a Palavra de Deus”. (CR, 31).
Levar a comunhão com Jesus Cristo. Só ele pode conduzir ao amor do Pai. Portanto, aquele que é chamado a ensinar o Cristo deve conhece-lo. É desse conhecimento de Cristo que jorra o desejo de anuncia-lo, de evangelizar e de levar outro ao ‘sim’ da fé em Jesus”. Catecismo da Igreja Católica (CIC 428 e 429)..



Parte III – Significados Diversos da Catequese

A catequese pode ser entendida de diversas maneiras, quatro mais precisamente. Portanto, podemos dizer que é extremamente reducionista e simplório chamar “catequese” unicamente os encontros preparativos para recepção de um sacramento.
Catequese:
1.                                  Iniciação à fé e vida na comunidade: Significa que mediante recepção do batismo, passamos a integrar a comunidade de fé;
2.                                  Como processo de imersão na cristandade: consiste na vivência que assume todo batizado uma vez integrado na comunidade;
3.                                  Instrução: aqui sim podemos dizer que são os encontros que antecedem e buscam preparar o catequizando que uma vez integrado na comunidade, busca crescimento na mesma e uma mais profunda vivência de seu cristianismo;
4.                                  Como educação permanente para a comunhão e participação na comunidade de fé: é importante dentro da mística do cristianismo a perseverança nas virtudes adquiridas dentro dos passos que antecedem a este.  Isto é, Uma vez iniciados, imersos na comunidade e buscando aprofundamento no cristianismo, nos é colocada essa outra visão de catequese: comunhão e participação que consistem na perseverança dos passos catequéticos antecedentes.






















Referências Bibliográficas:

Mincato, RAMIRO (1ª edição). Vol 1. CATEQUISTAS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS, 2009;
CNBB (2ª edição). Vol 1. SOU CATÓLICO VIVO MINHA FÉ, 2007;
Vaticano II, CONCÍLIO (13ª edição). Vol 1. Const. Dogm. sobre a Revelação Divina, DEI VERBUM, 1965;
Católica, CATECISMO DA IGREJA (CIC). Edição da Vozes, 1993;
Pastorais, DIRETRIZES. (2009) DIOCESE DE NOVO HAMBURGO;










CONCLUSÃO

Tendo estudado e aprofundado questões relacionadas à catequese, chegamos à conclusão que, de fato, ela é um meio de evangelização eficaz, uma vez que compreendida a sua importância. Tanto o é que por ser a catequese entendida por diversos significados, percebemos a amplitude do tema.
Além disso, procuramos neste trabalho, dar ênfase a novos conceitos de catequese, dentre os quais destacamos a “catequese renovada”. É preciso re-aprendermos a necessidade de uma catequese caracterizada pelo espírito evangelizador dos primeiros discípulos: revivermos o “querigma”, o primeiro anúncio.
Esperamos que esse trabalho possa ser um subsídio auxiliar quanto a questão do verdadeiro sentido da catequese. Que este trabalho possa ser, também, um meio de compreensão do tema e da importância de uma renovação catequética com base na Palavra de Deus.