Já dizia o Beato João Paulo II na Exortação Apostólica “Pastores Dabo Vobis” (PDV) no número 12: “(...) o presbítero encontra a verdade plena de sua identidade no fato de ser uma derivação, uma participação específica e uma continuação do próprio Cristo”. Pois bem, ao assumir tal identidade – a de Cristo – que, diga-se de passagem, se vai construindo ao longo de toda a vida e, de modo muito particular, nos anos de formação seminarística, o candidato ao Sacramento da Ordem assume, também, as exigências inerentes e as responsabilidades cabíveis. E as assume em Primeira Pessoa: “Quero; eu quero”. Cuide-se, no entanto, para não tornar, por causa disso, o sacerdócio algo individualizado e egoístico, resultado, talvez, de uma interpretação errônea deste assumir em Primeira Pessoa. Assumir em Primeira Pessoa é exprimir que o ministério é aceito livremente. Nesse sentido, há de se dizer que o compromisso firmado não constitui apenas e tão somente a submissão da natureza humana, dotada de querer e vontade própria, a certas exigências disciplinares. Antes, constitui um despojamento necessário à ação da Graça, visto que a Graça vem em socorro da Natureza e a supera. E este superar, não é aqui entendido como diminuição ou mesmo eliminação da Natureza. Pelo contrário, a Graça pressupõe a Natureza e a sua superação designa a elevação da mesma à sua real dignidade. Por isso podemos inferir que o sacerdote constitui o “in persona Christi”: o auxílio da Graça. É como se dissesse: “quero, mas não o quero por mérito próprio. Afinal, quero com a Graça de Deus”.
A resposta positiva - “quero” - assume também o dom total de si mesmo. É um verdadeiro pacto de caráter nupcial: “A sua vida – vida do presbítero – deve iluminar-se e orientar-se também por este tratamento nupcial de Cristo, ser, por conseguinte, capaz de amar a gente com um coração novo, grande e puro, com um autêntico esquecimento de si mesmo, com dedicação plena, contínua e fiel (...)” (PDV, 22). Com efeito, o “sim” dado no Sacramento do Matrimônio é comparável ao “quero” da Ordem. Assim como os noivos decidem, por livre vontade, assumir um pacto de amor firmado para sempre, o sacerdote disponibiliza integral e perpetuamente sua vida em função de Cristo e da Igreja: mistério sublime e desafiador!
Tendo aos olhos a já referida amplitude e alcance deste querer sacerdotal tão peculiar, resta-nos dizer ainda que precisamos exercitar, desde já, nosso querer. Talvez caiba a essa reflexão a exortação do Apóstolo Paulo: “Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo” (Fl 2, 5). Não é tarefa fácil. Por vezes não fazemos o bem que queremos e acabamos fazendo o mal que não queremos. É característico de nossa fragilidade! Para tanto, faz-se necessário o abandono no Espírito do Senhor que está conosco. Ele nos dá o dom da Fortaleza e mesmo nas dificuldades encoraja-nos para sempre de novo retomarmos o caminho. Nestas perspectivas, peçamos a Maria, Mãe dos Sacerdotes, que interceda por nós.