terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Questões Humanísticas - ENSAIOS UNIVERSITÁRIOS

  1. Quem sou eu?

  1. “Será tudo pura ilusão”: Que argumentos você apresenta a favor ou contra a  tese da imortalidade?

  1. Procura descrever o processo da Personalização.



1.     No decorrer de nossa existência, muitas são as vezes em que nos questionamos sobre nossa própria existência e sobre nosso próprio ser. As respostas reducionistas e deterministas acerca de nossa identidade e de nossa finalidade parecem não satisfazer as exigências do questionamento: quem sou eu? Para alguns o homem é o categórico “caniço pensante”, para outros, prepondera a visão niilista cujo conteúdo exprime que o ser humano não passa de um verdadeiro nada. A grande máxima de Blaise Pascal parece, de certo modo, explicitar a incógnita, o mistério, o “Sem Fundo” humano: “O homem se gaba, eu o rebaixo; o homem se rebaixa, eu o gabo. O contradigo sempre até que ele compreenda que é um monstro incompreensível”. (Pascal, Pensamentos, 130). Com efeito, pouco ou nada se pode determinar a respeito do que seja o homem. Ele sempre é capaz de surpreender, modificar-se, reestruturar-se.
Parece contraditório o que vamos considerar agora. No entanto é verdade que mesmo que o ser humano, como o diz Pascal, seja incompreensível, não é impossível investigar a seu respeito. Destarte, tenhamos claro: nunca chegaremos ao ponto de determinar o ser humano na sua totalidade num ou noutro conceito; a reflexão sobre o homem só é possível aceitando essa consideração. Os esforços da antropologia filosófica vão ao encontro disso: formulam questionamentos, esmeram-se em teses e respostas cuja dinâmica da abertura lhes permite sempre de novo reciclar o já considerado.
Reflexão Filosófica de Homem: o homem voltado para si mesmo, como que debruçado sobre si e seus aspectos, na busca constante de compreensão acerca de si; um ser cujas dimensões são incomensuráveis.
 A própria antropologia pode ser exemplificada a partir de quatro dimensões: filosófica (o homem voltado para si mesmo, reflexões acerca de seu ser e de sua existência/esforço contínuo); cultural (o homem a partir de suas produções); científica (o homem que pode ser analisado cientificamente, biologicamente, historicamente); teológica (o homem entendido a partir de uma concepção que aceita o divino e o reflete com o divino como ‘pano de fundo’ / “o abismo do homem dialoga com o abismo de Deus”). Em linhas gerais, as antropologias citadas, que por sua vez possuem outras ramificações, dão-nos uma certa noção da amplitude dos aspectos humanos. Além disso, fala-se também de categorias humanas (ou o ser humano sob diferentes enfoques): ser orgânico, ser psíquico, ser social, ser inteligente, ser consciente, ser religioso. O homem, pertencente aos três reinos: animal, vegetal, mineral; o homem que aspira o infinito, à liberdade;
A pergunta que motiva o presente texto – “quem sou eu?” – é sugestiva, por que parece primar uma experiência individual. Poderia haver a pretensão de contar uma historia a respeito de um ou de outro. Cair-se-ia em mais um fútil determinismo (entenda-se por determinismo uma tentativa frustrada de determinar o ser humano considerando um ou outro, ou mesmo, alguns aspectos). Se assim fosse, não se estaria respondendo à questão, visto que a historicidade é considerável para ir se abeirando do que vem a ser o homem – (que, diga-se de passagem, está em contínuo processo de devir) – embora ela por si só não seja suficiente. Não é possível responder quem somos numa resposta que seja suficiente ou que satisfaça todos os anseios a esse respeito. Terminamos com algo que agora se nos vem ao pensamento: tudo o que dissermos a propósito do homem poderá um dia estar certo. Entretanto, do homem nunca se poderá dizer tudo.

2.           Certamente é deveras difícil posicionar-se a respeito de algo que ainda não possuímos experiência. Neste sentido, falamos apropriadamente sobre o tema da imortalidade. Talvez o levantamento de argumentos possa esclarecer uma determinada posição, a favor ou contra.
Quando do exercício de reflexão sobre o ser humano, sobretudo no que concerne à antropologia filosófica que, por sua vez, procura encontrar respostas a esse propósito num sentido não ramificado, mas global, fala-se de uma auto-transcendência humana: “o homem transcende infinitamente o homem”. O ser humano supera-se. Em outras palavras, não se contenta tão somente com o vigente. Para tanto, o sentido de abertura (“O Homem é um ser aberto” – Karl Jaspers) lhe possibilita aperfeiçoamento de seus dons, de seus pensamentos, de suas atitudes, de suas produções, de suas crenças, etc. É um ser que por natureza não se contenta com a morte, tanto que busca compreender, entender tanto quanto possível do mistério. Aspira ao infinito, à imortalidade. Max Scheler diz que o que diferencia o homem dos animais é o espírito. O espírito, simplificadamente, é a abertura ao infinito, condição do ser que é aberto. A auto-transcendência lhe projeta para além da morte: um desejo de vida que supera, não se apraz no fato da morte física como fim de tudo.
Já nos filósofos da antiguidade, como por exemplo Sócrates, se percebe um voltar-se a essa questão. Lançam argumentos buscando justificar a imortalidade da alma. Ainda mais: os grandes filósofos são uma tentativa de encontrar um sentido face ao problema da morte. Percebe-se que o desejo metafísico é o motor que impulsiona o ser humano para além da natureza. O ser humano é um ser aberto ao infinito no qual se inscreve em uma historicidade e nela se manifesta e talvez o sentido para toda sua existência se concentre justamente na questão da imortalidade. A vida é pujante. Para Freud é “impulso vital”. Em outras palavras, não queremos a morte. O desejo primordial é viver, e viver bem. Vê-se com clareza isso, por exemplo, no avanço da biologia e da medicina, sobretudo a partir do final dos anos 90, na busca da cura, da longevidade e da qualidade de vida.
Por fim, posicionar-se, como o já dito no início, a favor ou contra a imortalidade é um exercício árduo. Exige argumentação sobremaneira. Mesmo assim, cremos, não se chegaria a uma resposta completamente satisfatória. A esse respeito (imortalidade), preferimos suspender juízo. Pode ser e pode não ser. Há argumentos filosóficos a favor e contra. Defender ou combater algo sobre o qual ainda não se fez uma reflexão mais aprofundada, ao nosso ver, seria ignorância. O fato é: o ser humano aspira à imortalidade, não se contenta com a morte. Essa projeção, ou tendência ao infinito, pode ser entendida como justificativa para a imortalidade, ou não. A argumentação pode ser satisfatória ou não. A posição de caráter individual – que nem cogitamos a possibilidade de fazer – poderia ser satisfatória ou não. Uma coisa é certa: se houvesse determinação, fechamento de questão, mesmo que a respeito da questão da imortalidade, estaríamos, a nosso ver, agredindo o sentido de abertura humana. O mais prudente talvez seja silenciar e refletir mais a propósito da questão da imortalidade do homem, clarear os conceitos e, posteriormente, exercitar-se na tentativa de argumentação e posição.

  1. Antes de explicitarmos apropriadamente o processo de personalização faz-se necessário evidenciar um pouco do que vem a ser o conceito. Persona, do latim, designa a máscara de personagens teatrais. Mais abrangentemente, o termo possui a significância de compreensão do homem em suas relações com o mundo. O ser humano, vai se construindo gradativamente no processo histórico. Aos poucos se vai nascendo o humano no homem. Uma criança, ao nascer, é puro instinto. Ao longo de sua vida vai-se construindo, mediante compreensões mais efetivas de si, dos valores, do Outro.
É importante considerar que é só na relação intersubjetiva que o ser humano se vai tornando Pessoa no sentido do termo. É na relação com o Outro (este “Outro” refere-se à dimensão da Alteridade – O cosmos, outro ser humano e Deus) que se descobrem os valores e que se descobre a si mesmo. A sua abertura, interação, sobretudo com o outro humano, lhe possibilita a construção de sua personalidade. Fala-se, também de Pessoa, no parâmetro religioso, quando se busca exprimir a relação com Deus Pessoa (diga-se de passagem, que no âmbito religioso a compreensão de Deus não se deve confundir com o absoluto metafísico que é absoluto racional).
Por fim, há de se dizer que a personalização é o processo que designa o tornar-se pessoa, na consideração da Alteridade. Vamos nos tornando pessoa, construindo nossa personalidade, à medida em que se interage e se aprende do mundo, do outro ser humano, do divino. No sentido de abertura, ato de reciclar-se periodicamente, pode-se dizer, também, que o ser humano constrói-se nas suas relações consigo mesmo. Do processo de personalização nunca se poderá dizer acabado (dá-se a vida inteira e a todo momento).

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