A complexidade do tema “identidade” no mundo de hoje, tem surtido efeito na Igreja e acarretado dificuldades no âmbito eclesial. Não são poucos os membros de nossas comunidades cristãs que têm se encontrado em situações difíceis acerca da descoberta de si e da compreensão de sua própria vida e missão no mundo. O que nos tem preocupado demasiadamente, no entanto, é a crise de identidade do clero que se mostrou contínua e crescente, sobretudo depois do concílio vaticano II, quando o estereótipo pronto da figura do padre veio à baixo.
Entenda-se que o Concílio Vaticano II não quis e não quer ser motivo de crise para o clero, mas quer permitir ao mesmo a oportunidade ainda maior para seu autoconhecimento.
A preocupação central desta nossa singela obra, é na verdade uma alusão à verdadeira teologia do ministério sacerdotal, sobre a qual não formulamos estereótipos, mas justificamos a maneira de ser do presbítero querida pela Igreja. Somente com base numa espiritualidade e numa teologia do ministério poderemos compreender e aceitar o presbítero na sua integridade. Maneira de ser não seja aqui entendida como “formas de agir”. Esse é o passo seguinte. É preciso primeiro compreender que o sacerdote quando se configura a Cristo pela ordenação, não perde a sua identidade única e irrepetível. Configurar pressupõe trabalho e esforço de mudança de vida. Não significa que quando se é configurado a Cristo, acabam-se os pecados. O agir de Cristo deveria ser uma constante na vida do presbítero. No entanto, sua natureza humana continua sendo frágil e passível de falhas.
O estereótipo passado, resumia-se quase que exclusivamente a uma observância rigorosa de certos ritos ou, mesmo, dependente de fatores externos. Isso podia resultar em uma maneira muito simplista de medir a santidade ou o pecado do indivíduo. O Concílio Vaticano II propõem um retorno ao essencial, ao âmago da vida sacerdotal: o descobrir-se e aceitar-se sacerdote. Como já havíamos dito quando nos referíamos à identidade e à personalidade, na totalidade do ser humano estão contidos também os acidentes, que embora menos importantes, tornam-se necessários para um conhecimento mais efetivo do ser. De nada adiantariam acidentes (e aqui, sim, estão as formas de agir) se não houvesse um conhecimento de si, bem como uma personalidade madura e equilibrada.
Passemos aos dados: alguns seminaristas até se fizeram sacerdotes, mas não aceitam o sacerdócio tal como é. Isso causa dúvida, incerteza, crise quanto à figura do padre que, por sua vez, causa repulsa da juventude. Um sacerdote pouco ou nada configurado a Cristo, a não ser pelo Sacramento da Ordem, gera uma repulsa da juventude quanto a assumir a mesma vocação, ou seja, uma vez que os jovens percebem no padre alguém frustrado, imaturo, incoerente, fraco na fé, sem convicções, sem decisão, pouco animado ou infeliz,, haverá da parte deles uma negação e pouco interesse em assumir tal vocação que tragam por conseqüência os efeitos citados.
“Nota-se um estado de infelicidade e de frustração em muitos sacerdotes, por falta de amizade fraterna entre eles, de insegurança econômica e de isolamento. Não obstante as tentativas feitas pelos Bispos para se avizinharem do seu clero, este por vezes continua a sentir os Bispos afastados de seus problemas pessoais e humanos. Os jovens não podem descobrir um ideal de vida na simples administração dos Sacramentos: o melhor resultado em favor das vocações eles o obtêm entre padres dedicados aos vários movimentos de apostolado. Mas, por outro lado, o agravar-se dos problemas sociais desviou a atividade do padre para o campo social: nesta situação, porém, os jovens já não vêem motivos para se fazerem padres. Para muitos jovens, com efeito, o aspecto social da vocação tornou-se preponderante: nestas circunstâncias decidem que não é necessário tornar-se padre, pois o que faz um sacerdote pode faze-lo também um leigo. Melhor ainda: muitos jovens pensam que podem realizar apostolado mais eficaz sendo leigos, porque desejam agir como responsáveis. Grande número de atividades profissionais de assistência social, de ensino etc. eram no passado como um campo de trabalho próprio dos padres; agora são os leigos que assumem tal responsabilidade. Os jovens encontram hoje muitas possibilidades de participar na missão da Igreja em condições não especificamente sacerdotais. Então descobrindo que muitas atividades de apostolado e o próprio chamamento para a santidade não são exclusivas do sacerdócio e da vida religiosa, mas estão dentro das possibilidades do leigo e sem as renúncias que aqueles estados exigem”.(pg. 25)
Brilhante a constatação de Dom Boaventura Kloppenburg em sem livro intitulado: “O Ser do Padre”. Quanto o deparar-se do jovem frente à possibilidade de tornarem-se padres, descrita no trecho acima, podemos tirar duas conclusões concisas. Uma boa e a outra menos boa:
- o jovem cada vez mais tem podido refletir quanto ao vasto campo de atividades que poderá exercer em se tratando de missionariedade. Isso significa que ele tem encontrado seu espaço na vida e na missão da Igreja;
- no entanto, tem perdido a oportunidade de perceber o que é intrínseco e específico na Missão do sacerdote e o que difere o sacerdócio ministerial das demais missões e vocações. Essa dificuldade interfere eminentemente no conhecimento integral da vida e da missão de cada uma das vocações específicas que totalizam no corpo místico de Cristo, a sua Igreja.
Para que possamos garantir às gerações futuras os padres que lhes serão necessárias, é de extrema importância descobrirmos o essencial da identidade do presbítero. A dúvida quanto ao ser do sacerdote nos dias atuais tem sido um questionamento permanente entre os próprios clérigos. Parece-nos que pelo simples fato de se modificarem imposições ritualísticas incutidas por entre os séculos (não que estas não tenham sido importantes), tenhamos perdido o sentido último da vocação ao ministério ordenado enquanto tal.
Com que sabedoria propunha o santo padre de saudosa memória, beato João XXIII aos sacerdotes e a toda Igreja um “aggiornamento”, atualização. Isto nada mais é que voltar às origens. Mesmo que isso pareça contraditório a atualização é voltar no tempo. Sim, voltar no tempo para descobrir o fervor querigmático (fervor do primeiro anúncio) que se fazia constante no coração dos apóstolos e que dava o alicerce necessário para a atividade missionária até ao ponto de entregar a vida por amor à causa do Reino de Deus. Acreditamos ser necessário em nossos dias o mesmo fervor apostólico de Paulo: “a caridade (amor, atitude) de Cristo urge em nós” .
É uma pena que muitos tenham perdido o cerne da Missão específica do padre. Alguns padres não sabem mais o que antes lhes era cristalino. Com o aumento da atuação dos leigos, já não vêem motivos para continuar sendo padres, celibatários, à disposição, se os leigos fazem tudo isso sem se prejudicarem na vida prática. É preciso rever a identidade do presbítero, do contrário, não há sentido ser padre. Em meio à crise o “padre não deixa o ministério sacerdotal, mas, por assim dizer, não o encontra”. (REB 1969, pp. 937)
Sem. Davi Jonas Dietrich - Arquidiocese de Porto Alegre/RS.

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